Respostas para suas dúvidas sobre trabalho, família e covid-19

Conselhos de especialistas sobre como cuidar de si mesmo, lidar com a incerteza e culpa.

Por Laura Amico

No início da pandemia, quando meu marido e eu estávamos começando a trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidando de nosso filho na pré-escola e do bebê e procurávamos ter um estoque de leite, ovos e lenços umedecidos para manter todos alimentados e seguros, eu comecei a usar um email de resposta automática para alertar meus contatos de que eu poderia não estar disponível imediatamente como costumava estar.

No começo era uma mensagem genérica dizendo que as respostas poderiam atrasar. Mas à medida que a pandemia avançava, manter todas as atividades funcionando ficava cada vez mais complicado, então comecei a usar o espaço para entender a estranheza de trabalhar a paternidade/maternidade durante a pandemia. E, por isso, se você me enviou um email, você ouviu falar de meu filho de quatro anos com fobia a cachorros anos implorando que lhe desse cinco filhotes no aniversário, ou chamando minha nova cadeira giratória de “assento cheio de frescura”, ou se referindo muito habilmente à nossa casa como “casa divertida”.

“Agora a vida está bem estranha”, é como eu encerro cada mensagem automática. “Por favor, tenha paciência comigo”. Foi uma súplica, — na verdade, um grito — para as pessoas saberem que não havia nada normal na forma como minha vida havia mudado da noite para o dia. A alegria dessas mensagens era o fato de eu receber retorno de tantos colegas: “sim, exatamente isso”. Seguido muito de perto por, “mas falando sério — como vocês estão se virando com a escola/trabalho/gestão do tempo/culpa/etc.?”

Sinceramente, eu não tinha — e ainda não tenho — a menor ideia. Na maior parte do tempo, preencher uma atribuição e acordar no dia seguinte para fazer tudo de novo são conquistas bem grandes. Mas eu posso, nós podemos fazer melhor? Será que podemos? Para descobrir, a HBR perguntou a pais do mundo todo que trabalham fora (falando figurativamente, pelo menos) de casa: O que é mais difícil nesse momento? No que você precisou de ajuda? As respostas a seguir foram coletadas do grupo no Linkedin da HBR, e organizadas por tema:

  • Cuidando de si
  • Lidando com interrupções
  • Demissões e caçando talentos
  • O que as crianças estão aprendendo sobre o trabalho
  • Lidando com a incerteza e a culpa

Depois apresentamos essas questões a um júri de especialistas para obter algumas respostas. Entre os participantes estavam:

Julia Beck, fundadora e CEO do It’s Working Project

Amber Coleman-Mortley, diretora de envolvimento social da iCivics, e podcaster de Let’s K12 Better

Brad Harrington, diretor do Center for Work & Family, do Boston College

Becky Kennedy, psicóloga clínica, @drbeckyathome no Instagram

Laila Tarraf, diretora de pessoas, Allbirds

A via agora é estranha, todos eles afirmaram. Mas mostramos aqui como sobreviver (as dúvidas e conselhos foram editados para maior clareza).

1. Cuidando de si

Antes da pandemia, havia muita pressão para os pais serem funcionários perfeitos e mães e pais mágicos. Agora, a pressão é ainda maior. Não é só postar um quadro das fantasias de Halloween no Pinterest, é também estar no comando das tarefas escolares, preparando o almoço e snacks todos os dias, se preocupando com o que o isolamento social está causando a seu bebê de dois anos ou ao filho que está no ensino médio, o tempo todo participando de chamadas de vídeo e do afastamento de colegas.

Há também mais tensão no trabalho, entre interrupções comuns, perdas de emprego verdadeiras ou ameaças, e cronogramas irregulares. É isso que ouvimos dos leitores mais que qualquer outra coisa. Como colocou sucintamente Nedra Hutton, de Round Rock, Texas: como se manter mentalmente são? Eu me sinto como se estivesse falhando em tudo.

Na Índia, um leitor anônimo escreveu: minha empresa está dispensando funcionários no mundo todo. E se isso acontecer comigo? Isso me preocupa tanto que eu me privo de horas de sono para me dedicar o máximo possível ao meu trabalho porque não quero prejudicar meu filho de dois anos privando-o do tempo que ele merece. Então eu ouço todos recomendarem fazer exercícios físicos e cuidar da saúde. Tudo isso é tão assustador.

Eu sinto muita empatia por esses dois leitores. Há tanto a fazer e tanta preocupação incorporada em tudo. O que podemos fazer?

Becky Kennedy: Primeiro, comece dedicando a si mesmo uma dose horária de compaixão.

A autocompaixão tem o poder de transformar nossas preocupações do intolerável para o ainda difícil, mas tolerável. De hora em hora, pare o trabalho, coloque seus pés no chão e uma mão no coração, e repita o mantra: “este é um momento realmente difícil para ser pai/mãe. Estou fazendo o melhor que posso. Estou fazendo o suficiente. Eu sou suficiente”.

Segundo, pense em pequenas doses de cuidados pessoais. Isso pode significar um banho de ducha especial, três minutos de meditação, ou uma caminhada de 10 minutos sozinha. Como seus dias são extremamente exaustivos, seu corpo precisa se recuperar. Respeite essa necessidade.

Amber Coleman-Mortley: Quando você está sentindo o caos girar à sua volta, feche os olhos por alguns minutos e inspire e expire. Eu me pego repetindo a “oração da serenidade” em meus momentos de ansiedade. Ajuda. Eu também tento me lembrar de que havia uma pressão enorme sobre pais que trabalham para cumprir os padrões irrealistas mesmo antes da Covid-19. Você pode romper essa pressão focando em rotinas baseadas em bem estar, gratidão, e cuidado pessoal. De quais rituais, hábitos ou valores irrealistas você pode abrir mão? É do jantar todas as noites às 18 horas? Ou ir dormir impreterivelmente às 20 horas? Você é capaz de abdicar de um pouco da rigidez da rotina com rituais viáveis como discussões em família, mais abraços, melhores hábitos alimentares, jogar à noite com a família, horário de dormir flexível, ou ler por prazer?

Laila Tarraf: Vamos tentar dar um pouco de folga uns aos outros. As linhas que dividem trabalho e família se misturaram, o que exige que todos nós — funcionários e empregadores — devemos estabelecer limites mais fortes e praticar os cuidados pessoais de forma mais consciente.

Na Allbirds, continuamos a encorajar a flexibilidade para todos os funcionários, mas principalmente os pais que trabalham com filhos pequenos em casa. Nós interditamos os horários entre 8 e 9 horas da manhã para garantir que os pais possam fazer as crianças se organizarem pela manhã, e em uma tarde por semana não marcamos nenhuma reunião. Tentamos encorajar nossos pais a bloquear suas agendas durante o dia quando eles precisam dar atenção a seus filhos. Isso pode ser uma hora no almoço ou trinta minutos às 15 horas, quando as crianças saem da escola, ou às 16 ou 17 horas quando as crianças querem sair e brincar.

No entanto, as empresas não podem criar limites sadios para as pessoas, portanto, cabe a cada um de nós, determinar o que é necessário fazer para cuidar de nós mesmos. Os cuidados pessoais vêm em várias formas e tamanhos e se você tiver a capacidade, tempo e motivação para pular em seu Peloton ou ir correr, então ótimo. E se todos puderem dispor desse momento é hora de dar uma boa respirada, fechar os olhos e sair do computador, reservar pausas durante o dia para se alongar, ou fazer uma caminhada — isso também é ótimo.

2. Lidando com as interrupções

Provavelmente, todos nós já participamos de uma videoconferência ou uma reunião por vídeo em que uma criança “apareceu de repente”. Nossos leitores perguntaram como lidar com esse tipo de interrupção, que pode ser momentaneamente engraçadinho, mas pode ter impactos de longo prazo.

Vineeta, de Mumbai perguntou: Por causa da pandemia, estou trabalhando em casa com um bebê de um ano cuja alimentação e outras necessidades não podem ser postergadas ou pré-planejadas. Em minha empresa, trabalhar remotamente não era a norma antes da pandemia. Como não ser interpretada como pouco profissional se eu interromper ou adiar uma ligação por uma necessidade urgente do bebê? Seria melhor ser sincera sobre os motivos, ou eu seria considerada uma pessoa em quem não se pode confiar?

Andria, de Centreville, Virginia, também quer saber como lidar com as interrupções: como posso ser produtiva mesmo sendo interrompida e monitorando as crianças constantemente o dia todo? Meu foco está mudando a cada 30 minutos, e está provocando um verdadeiro colapso de atenção. Algum conselho?

Julia Beck: O colapso de atenção que você descreve é bem real, e prejudicial. Todos nós precisamos de tempo para pensar, idealizar e processar. Trabalhar em um espaço que também é escola, lavanderia e restaurante (só para mencionar alguns), é inviável. Minha resposta direta é encontrar um local onde você não pode e não quer ser interrompida. Eliminar todas as variáveis sempre presentes melhora a produtividade e protege sua saúde mental e bem-estar.

Amber Coleman-Mortley: A comunicação com seu supervisor e sua equipe é fundamental. Seja claro sobre suas necessidades e exija clareza em relação a eles, depois passe um tempo desenvolvendo uma estratégia que possa apoiar melhor a todos, e de forma equitativa. Existem pequenas manobras que podem ajudar, como por exemplo, desligar a câmera e o som até ser absolutamente necessário ligá-los?

Leia o manual do funcionário para ver como ele trata das necessidades dos pais. Você está utilizando os serviços e políticas disponíveis? Há espaço para a criatividade em relação a horários de trabalho? Como os outros pais que trabalham estão administrando a vida nesse momento, e é possível criar um grupo de apoio onde você compartilha as melhores práticas, dicas e mecanismos de enfrentamento? Se você não dispuser de um grupo de apoio no trabalho, procure sua indústria no Facebook. Há vários grupos que você pode participar para obter apoio.

Finalmente, pense em como gerenciar a disponibilidade de sua agenda. Bloqueie alguns períodos de cada semana para evitar que reuniões aleatórias sejam marcadas em horários inoportunos.

3. Dividindo a carga em casa.

Eu realmente amo/odeio essa pergunta de um leitor anônimo de Londres, que escreveu sobre as expectativas de gênero de empregadores e colegas em relação a cuidar das crianças: minha esposa desempenha uma atividade muito similar à minha. Na verdade, ela ocupa uma posição mais sênior. Quando estou participando de uma chamada por vídeo e preciso terminar antes, ou acomodar meu horário para cuidar das crianças, me perguntaram várias vezes, “o que sua esposa está fazendo?” ou “sua esposa não pode fazer isso?”

É frustrante ouvir que isso está acontecendo, embora saibamos que as mães assumem a assistência aos filhos durante a maior parte do tempo. O que as pessoas, como esse pai, podem fazer numa situação dessas?

Brad Harrington: Está na hora de os homens enfrentarem preconceitos de gênero ultrapassados como esse. Nossa pesquisa no Center for Work & Families, do Boston College, mostrou que os pais são mais suscetíveis que as mães em atender as ideias organizacionais sobre o que se espera deles no trabalho — sejam elas sinalizadas pelos colegas ou pelas percepções dos homens sobre o que significa comportamento “apropriado” em suas empresas.

Em qualquer caso, os homens precisam avançar e ser aliados sinceros. Converse com seu parceiro para tomar as decisões certas para sua família e exponha suas convicções claramente para seus colegas. Ao fazer isso, você também estará contribuindo para maior igualdade de gênero.

Becky Kennedy: Eu adoro a ideia de Kasia Urbaniak de responder questões inapropriadas com uma pergunta como uma forma de mudar a narrativa e estimular a dinâmica na relação. Eu penso que, para ser verdadeiramente impactante e eficiente, o pai aqui pode dizer algo como, “por que você pensa que minha esposa deveria fazer isso e não eu? ou “o que faz você pensar que eu não participo equitativamente das obrigações em casa?”. Isso realmente funciona porque força o interlocutor a enfrentar seus estereótipos.

4. Demissões e caça talentos

Ouvimos vários leitores que perderam o emprego durante a pandemia. Um deles, Lisa Eisensmith, de Lancaster, Nova York, perguntou: eu fui dispensada de meu emprego em tempo integral no final de julho. Eu tenho dois filhos em idade escolar e eles estão num sistema de aprendizado de meio período presencial e meio período virtual. Enquanto isso, estou procurando um novo emprego. Como abordar a situação em uma entrevista? Se eu conseguir o emprego, como abordar a situação da escola com o novo empregador?

Ouvimos também leitores que estão preocupados com os empregos e as empresas onde trabalham devido às suas responsabilidades de pai/mãe. Um leitor anônimo de Dallas, Texas, escreveu: nós organizamos nossas vidas para que o trabalho sempre tivesse prioridade máxima, mandamos nossos filhos para a escola e providenciamos assistência pós-escola para não interromper nosso dia de trabalho. Agora somos forçados a dividir nossa fidelidade à medida que as demandas de escola online e o trabalho virtual estão mais intensos que nunca. Estou preocupado porque as empresas podem querer priorizar a contratação e promoção de funcionários que não têm filhos e deixar de fora os que têm.

Essas duas questões realmente atingem o ponto central de como a criação dos filhos e o trabalho mudaram tão violentamente, enquanto que as próprias empresas (e suas normas e prioridades) talvez não tenham mudado tanto. Como você administraria esse conflito?

Laila Tarraf: poucas empresas consideram funcionários que são pais menos desejáveis que os não pais. A Covid acabará desaparecendo e eu acredito que a maioria das empresas tem uma visão de prazo mais longo.

Ao ser entrevistada para um emprego, não creio que deva esconder sua situação de maternidade, principalmente se seu trabalho começar sendo remoto. Talvez você possa abordar o assunto com possíveis empregadores perguntando que práticas e protocolos eles adotam atualmente. A maioria das empresas precisou adequar sua forma de trabalhar, portanto, fazer perguntas sobre expectativas e como os atuais funcionários estão conciliando família e trabalho lhe dará uma ideia se a empresa é uma boa opção para você.

Julia Beck: trabalhar — durante a pandemia ou não —, requer foco total e capacidade de ativar a criatividade sem limitação ou ansiedade. O ambiente geral de sua casa pode não ser ideal para você começar a procurar emprego ou participar de uma reunião importante, mas você pode encontrar ou criar momentos quando isso acontecer?

Por exemplo, Peggy, executiva de uma fintech sediada em San Francisco, me revelou que seu ponto de partida para procurar emprego era seu carro estacionado em um local tranquilo no Embarcadero onde ela podia trabalhar duas ou três horas por dia. Quando ela conseguiu um emprego, ela firmou contratos de baixo custo para encontrar o espaço de que precisava longe dos filhos, enquanto ela se estabelecia em sua nova organização (o apartamento vazio de um amigo, por exemplo, ou um Airbnb a bom preço). No final, ela encontrou uma forma de trabalhar no quintal de sua casa.

Muitas pessoas podem se surpreender pela forma como a flexibilidade introduzida pela Covid se tornará norma. Neste contexto, o leitor que escreveu sobre organizar a assistência aos filhos e seu horário de trabalho sem interrupção poderia começar a pensar em como seria organizar a assistência aos filhos e conciliar as necessidades da família. Elas podem pensar que seus gestores e suas empresas estão, na maior parte, entendendo. Afinal, quando os funcionários encontram formas de se comprometer criativamente, os empregadores também se comprometem.

5. O que as crianças estão aprendendo sobre o trabalho

Havia uma linha interessante nas respostas sobre como as crianças estão vivenciando o trabalho neste exato momento.

Eu realmente sofri um impacto com esses dois comentários. O primeiro é de Roxana Contreras, de Lima, Peru: percebi que meu filho (de três anos) está associando “ter de trabalhar” com “momento triste”, mesmo quando eu digo a ele que amo o que faço. Ele só quer brincar, e é difícil para ele entender que mamãe e papai não podem brincar sempre que ele quer.

Derya, de Dubai, fez uma pergunta parecida: minha filha percebe que quando estou trabalhando, estou estressada, infeliz, ansiosa. Constantemente me culpando por não ser capaz de esconder minhas emoções e que eu respondo irritadamente toda vez que ela entra na sala e eu estou numa ligação. Estou preocupada que ela possa associar trabalho a infelicidade ou estresse ou raiva. Como controlar minhas emoções? Estou ensinando a ela que trabalhar é desagradável?

Amber Coleman-Mortley: Para qualquer criança pequena, trabalho ou qualquer atividade que não as envolva parece um obstáculo. Três anos é uma idade difícil para aprender como esperar e respeitar o tempo e o espaço dos outros, mas, no entanto, é possível e importante.

Meu conselho é estabelecer um prazo limite e pedir que seu filho volte a ver como você está ou lhe dê um abraço quando esse prazo terminar. Às vezes, crianças muito pequenas só querem proximidade. Se possível crie espaço para seu filho pequeno trabalhar ao seu lado com um tablet durante um determinado período.

Em relação às emoções negativas associadas ao trabalho, a questão mais importante é: qual é o sentido do trabalho em sua vida e para sua família? Você precisa reconciliar isso antes de conversar com seu filho. À medida que as crianças crescem, devemos conversar sobre esses assuntos e explicar que é com o trabalho que sustentamos nossa família financeiramente. Se você ama o que faz, compartilhe essa alegria com seu filho. Se você não está gostando do trabalho, repense em como você corre atrás das paixões e alegrias da vida em qualquer lugar.

Becky Kennedy: Em vez de ser realmente bom em fazer as coisas certas logo na primeira vez, tenha por meta ser realmente bom em corrigir. Isso significa que em vez de dizer a si mesma, “não vou gritar com meu filho hoje”, diga, “se eu gritar com meu filho hoje, vou me corrigir”. Aqui está um exemplo do que pode ser um bom conserto: “oi, meu amor. Hoje mais cedo eu gritei com você. Você estava certo ao perceber isso e estou certa de que você se sentiu mal. Exatamente como você, às vezes, sente forte emoções, mamãe também as sente e estou tentando manter a calma mesmo quando estou tendo um dia difícil. Eu te amo muito”.

6. Quando a culpa corre solta.

Vários leitores perguntaram como lidar com a culpa. Andrew, de Orlando, Flórida, escreveu sobre a culpa que sente em mandar seu filho para a escola quando ele acredita não ser seguro. Laura, de Alberta, Canadá, escreveu sobre a culpa que sente por saber o que seus filhos estão perdendo durante a pandemia. Outros escreveram sobre sentirem-se pessoalmente culpados ao tomar uma decisão de sair do emprego para administrar as tarefas domésticas.

Várias outras respostas repetiram os sentimentos deste leitor anônimo de Ashburn, Virginia, que escreveu: Há uma sensação constante de culpa nos malabarismos entre ter um emprego exigente em tempo integral e conseguir tempo para cuidar dos filhos, o que finalmente nos faz ser 200% no trabalho e em casa — e isso é extremamente cansativo mentalmente.

Eu sinto muito isso. O que podemos fazer com esses sentimentos de culpa? O que eles significam? É possível não se sentir culpado exatamente neste momento?

Becky Kennedy: É importante ter em mente que quando o mundo muda, precisamos mudar. Bem, na verdade, fazemos uma coisa mais complexa: nós nos adaptamos. A adaptação é o processo pelo qual um organismo consegue se ajustar melhor ao seu ambiente. Se você está tomando decisões diferentes sobre a criação dos filhos das que tomou meses atrás, é um sinal de sua capacidade de se adaptar. É um sinal de força, e ele é necessário para a sobrevivência.

Brad Harrington: Dadas as atuais circunstâncias, culpa é a última coisa que qualquer um de nós deveria estar sentindo. Nossa empresa precisa de nós, mas nossos filhos também e, muitas vezes, suas necessidades são mais urgentes — e, sinceramente, no longo prazo, mais importantes.

Nunca houve uma oportunidade mais importante para mostrar compreensão e empatia por aqueles que estão em situação difícil. Gestores e organizações precisam oferecer condições de trabalho flexíveis sempre que for possível. Isso inclui trabalhar em casa se as crianças não puderem ficar na creche ou na escola. Talvez seja impossível trabalhar de segunda a sexta, das 9 às 17 horas neste exato momento, mas permitir que as pessoas gerenciem seu tempo de formas diferentes pode ajudar muito. Se você for afortunado e tiver um parceiro(a), esses arranjos podem permitir que os cônjuges se alternem durante a semana.

Amber Coleman-Mortley: Certamente frustraremos nossos filhos, haja pandemia ou não. Não importa quanto nosso trabalho exija de nós, nossos filhos ainda podem crescer e sentir que eles deveriam ter recebido mais um abraço, mais um brinquedo ou um sorriso. Essa é a realidade que todos os pais precisam aceitar.

Quando você começa a enfrentar os sentimentos de culpa, pode colocá-los no devido contexto. Explore o que está no cerne da culpa. Se você está tentando criar um mundo onde seu filho não sente dor nem desconforto, boa sorte. Isso é completamente insustentável para você, e predispõe seu filho a expectativas irracionais do mundo e até de seu futuro cônjuge. Se sua culpa estiver ancorada em seu ego ou em como você mede seu valor, comece a explorar seu valor como uma constante do universo que não depende de você ter concluído um trabalho “com sucesso”.

7. Lidando com a incerteza

Uma leitora anônima de Boynton Beach, Flórida, escreveu: meu filho teve Covid em abril. Felizmente ele sobreviveu. Ele cumpriu a quarentena em casa sendo que era só eu que cuidava dele. Sou mãe solteira sem nenhuma estrutura familiar de apoio. Preciso ser forte para meu filho, e serei, custe o que custar, mas quando estou sozinha com meus pensamentos me preocupo com todas as incertezas de nossas vidas. Como lidar com toda essa incerteza? Estou me esforçando, mas tudo depende de mim.

Becky Kennedy: este é um caso contundente para se discutir a ansiedade e a preocupação: a ansiedade surge da compreensão de nossa capacidade de enfrentar algumas incógnitas futuras.

Muitas vezes, tentamos superar a ansiedade enfrentando a incerteza — tentando planejar coisas e prever problemas. Mas como não podemos controlar o futuro, isso não funciona. Uma estratégia melhor é trabalhar nossas capacidades de enfrentamento e nossa estimativa de quanto elas serão eficientes. Na próxima vez que você sentir uma pontada de ansiedade, tente lidar com isso como uma conversa íntima: “eu posso enfrentar coisas difíceis, eu sempre as enfrentei e sempre as enfrentarei” ou “estou em condições de enfrentar isso se acontecer”. Lembre-se de sua resiliência.

Laila Tarraf: Quando percebo que estou entrando na toca do coelho, tento perceber o que está indo bem, e o que há para agradecer, mesmo que seja simplesmente ar puro e um teto sobre minha cabeça.

Se você estiver em um momento da vida no qual não pode conversar consigo mesma sobre ansiedade e não consegue confiar nos amigos ou familiares para ajudá-la, pense em procurar um profissional de saúde mental ou um grupo de apoio.

8. Evitando o ressentimento

Uma leitora anônima de Washington, DC, escreveu: eu me orgulho de ser confiável e responsável — por minha família, meus funcionários e os alunos que minha empresa atende — e capaz de assumir diferentes papéis ao longo do dia. Essa pandemia me forçou a questionar tudo de que me orgulhei.

Não consigo ensinar minha filha de quatro anos a ler enquanto participo de um webinar via Zoom. Não consigo ter uma conversa franca com um fundador se minha filha chora ao fundo. E não consigo manter a dieta prescrita pelo médico para minha família se faço as compras do supermercado online. Mas é isso que a pandemia espera de mim.

Tenho medo de ter um desempenho inferior a 100% no trabalho por temer perder nossa maior fonte de renda e nosso plano de saúde. Por isso, por necessidade, estou permitindo que minha vida familiar, a educação de meus filhos e nossa saúde sejam prejudicados, e pela primeira vez em minha vida adulta, eu me ressinto por ser uma mãe que trabalha.

Amber Coleman-Mortley: Ninguém está pretendendo tirar nota 10, nem ser promovido por ser “uma ótima mãe”. Apenas seja o melhor que você pode ser em um dado momento, que pode mudar ao longo do dia, da semana, do mês. Significa aceitar que “controle” não é mais uma meta da criação dos filhos. A meta deve ser crescer ou simplesmente sobreviver a esse dia.

Aqui estão algumas sugestões:

  • Faça com que qualquer uma das crianças com idade suficiente ajude nas tarefas domésticas. Elas não executarão as tarefas que você delegar com perfeição, mas você terá de aprender a aceitar isso.
  • Tente ser criativo no horário do estudo em casa. Membros da família — primos maiores, tios, tias e avós, ou amigos da família — podem passar 20 ou 30 minutos no Zoom ou no FaceTime lendo para sua filha de quatro anos?
  • Pense em como seus filhos se beneficiam por você ser um pai/mãe que trabalha. O que você pode ensinar a eles sobre amor, paciência e engenhosidade que são necessários para conciliar vida profissional e vida familiar? Exclua mensagens e pessoas negativas de sua vida. As fotos perfeitas postadas no Pinterest ou Instagram estão alimentando seus sentimentos de inadequação ou imperfeição? Você tem o poder de parar de seguir, apertar o botão descartar, e desconectar quando as postagens forem de pessoas ou conteúdos desagradáveis.

Lembre-se que esse período representa somente uma pequena porcentagem de uma longa carreira e da linha de tempo familiar. Sim, ser pais e mães que trabalham é conflitante e imperfeito. Mas também é muito recompensador. 

Laura Amico é editora sênior da Harvard Business Review.


Conteúdo originalmente publicado na Revista Harvard Business Review – Janeiro de 2021.

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