junho 10, 2021

Por uma pedagogia das mídias

Um dos maiores especialistas no estudo das relações entre crianças, jovens e as mídias e em alfabetização midiática e informacional, David Buckingham defende a existência de uma disciplina escolar sobre tais temas — cada vez mais urgentes.

Por Januária Cristina Alves 

A escola tem um importante papel na formação de indivíduos capazes de lidar de maneira ética e crítica com os meios de comunicação, especialmente, nos dias de hoje, os digitais. É o que defende uma das principais referências em educação midiática no mundo, o britânico David Buckingham, autor de mais de 30 livros, professor emérito da Loughborough University, professor visitante no King’s College London e fundador do Centro para o Estudo de Crianças, Jovens e Mídia da London University. 

Buckingham, que também já foi consultor da Unesco, Nações Unidas, Unicef, Comissão Europeia e do próprio governo do Reino Unido, concedeu uma entrevista exclusiva para aprofundar algumas questões que podem auxiliar no estabelecimento de uma pedagogia das mídias — como ele mesmo denomina — que sejam, ao mesmo tempo, “teoricamente coerentes e praticamente possíveis” de serem implementadas não só nas escolas, mas em todos os ambientes de aprendizagem cotidiana de nossas crianças e jovens. Confira. 

Em 2019 o senhor lançou The Media Education Manifesto (Manifesto da educação midiática, ainda sem tradução em português), livro que já se tornou uma referência para refletirmos o papel da educação midiática no mundo em que vivemos. O que o motivou a escrever esse documento? 

Eu sou totalmente a favor da educação midiática. E eu não estou sozinho, obviamente. No mundo inteiro há grupos de pessoas que defendem a ideia também. Tenho pensado frequentemente sobre qual seria a verdadeira questão que envolve a educação midiática. É um tema em que às vezes se dá um passo para frente e depois um passo para a trás. Tem sido uma verdadeira luta chegar a um acordo entre os estudiosos e os educadores. E, de certa forma, poderíamos dizer: “Bem, a educação é conservadora e é muito resistente às mudanças”. Acho que parte disso é verdade, mas podemos observar que a educação também está mudando constantemente. Então me pergunto: “Por que essa resistência toda à ideia de implementar a educação midiática nas escolas?” A mídia, como disse no livro, é uma necessidade básica da vida moderna, ela está em toda parte, na política, na vida social, etc.  

Então, por que é controverso ou estranho estudarmos isso em sala de aula? 

Eu acho que isso é parte de um problema maior. No livro digo que, para mim, a temática não é tanto sobre a educação midiática em si, mas é sobre como ensinamos cultura e comunicação em termos gerais. Qual é a relação entre a educação e os sistemas de cultura, e os sistemas de comunicação? Essa é a questão central do Manifesto. E eu acho que esse é um problema maior que me proponho a contribuir para resolver: não se trata apenas de como ensinamos sobre a mídia, mas como ensinamos sobre cultura e comunicação. Porque a mídia faz parte desses dois universos, por isso acho que devemos ter uma disciplina no currículo sobre isso. No Reino Unido sempre foi historicamente a disciplina de “inglês”, língua nacional, literatura, gramática, etc. É como disse um autor em outro manifesto: não basta interpretar o mundo, também temos de mudá-lo. A educação para as mídias não deve apenas nos permitir lidar com este novo mundo digital, também deve nos encorajar a imaginar e a exigir algo diferente. Nesse sentido, o Manifesto pretende ser algo mais prático, um olhar bastante objetivo sobre essa questão. 

Se o senhor acredita que a educação midiática deve ser uma disciplina, como pensa a formação dos professores para que possam ministrá-la em sala de aula? Aqui no Brasil também é bastante comum observarmos os professores de língua portuguesa ou de história sendo os responsáveis por essa abordagem com as mídias. 

Bem, eu acho que é uma questão difícil porque ,do ponto de vista dos professores, eles estão sendo constantemente bombardeados com todas essas demandas sobre o que devem ou não fazer. Parece que os professores devem ter as respostas para todas as perguntas que se possa imaginar. Então, consigo entender um professor que diz: “Chega, não dou conta disso”. Porém, acho que vamos ter de enfrentar esse desafio. Os professores precisam de uma formação adequada. Eles não precisam de alguém que venha passar a tarde na escola e os empolgue com palestras, mas de algo mais aprofundado, de recursos adequados, de materiais para ensinar, de desenvolvimento profissional específico e, especialmente, de espaço para compartilhar suas ideias.  

Eu acredito muito na mudança na educação. E se ela vai ser uma mudança realmente duradoura precisa vir do berço, de baixo para cima, os professores precisam ter domínio sobre tudo isso, e eu acho que é muito difícil. Não estou falando de uma demanda simples, mas de algo além, talvez os professores não consigam dar conta dessa temática por não saber o suficiente sobre isso. Para mim, a educação midiática não é como fazer, não é sobre aprender a ser um profissional de mídia, na verdade é muito mais sobre um olhar crítico sobre a mídia. Eu acho que há muito o que os professores têm que aprender, algumas coisas eles já sabem, e algumas coisas os próprios alunos sabem. E se há uma troca de conhecimento entre eles, isso já significa muito!   

No Manisfesto o senhor aponta algumas possibilidades para os professores abordarem a educação midiática por meio das relações entre as mídias e a cultura. Para o senhor, ao ensinar, o professor deve levar em conta a cultura e as perspectivas de seus alunos, prestando atenção na forma como eles aprendem. O que o senhor destacaria no seu livro que pode ser bastante útil e prático para os professores neste momento? 

O que estou fazendo no Manifesto é sugerir que o professor se aproprie dos conceitos que envolvem a educação para as mídias, sobre as mídias, das representações que elas trazem, e possa aplicá-los de forma prática, e meu foco principal são as mídias sociais. O que eu quis fazer foi atualizar a ideia de representação, algo como: “Se você quiser ensinar sobre esse conceito em relação às mídias sociais, aqui estão algumas coisas que as crianças podem fazer em sala de aula”. Então, estou tentando ser muito prático quando me refiro às condições de trabalho realmente existentes nas escolas. “O que posso fazer em uma manhã de segunda-feira com meus alunos de 12 anos?” Eu não ofereço planos de aula; embora você possa encontrar esse tipo de coisa online, alguns são bons e outros não são tão bons assim.  

O que estou tentando fazer é dar algumas sugestões, mas também mostrar a relação entre as sugestões e os princípios, os conceitos. Chamo atenção para a tentação de oferecer apenas “atividades para ocupar as crianças”. Sempre podemos fazer coisas para manter as crianças ocupadas na aula. Mas, se as crianças não estão realmente aprendendo algo, qual é o propósito da atividade? Quais são os princípios? A pedagogia das mídias não é simplesmente ter uma experiência criativa de produção ou participação nos meios ou ainda saber usar esse ou aquele recurso digital. Deve também incluir uma visão crítica mais profunda sobre como a mídia funciona, comunica e representa o mundo, além de como ela produz e usa seus conteúdos.   

Como o senhor vê o papel dos chamados influenciadores digitais? O que podemos aprender com eles, que estão conseguindo mais impacto e escuta dos jovens do que nós, pais e educadores? 

Acho que é um fenômeno particularmente fascinante porque se trata de jovens falando para outros jovens, acho que a maioria dos influenciadores, em muitos casos, são adolescentes ou pessoas um pouco mais velhas falando com esse público. É interessante observar que eles representam o “sonho da democracia na internet”, ou seja, que qualquer um pode ser produtor de mídia, ou uma estrela do YouTube, e que isso não custa dinheiro. Mas isso não é verdade. Se você vai ao site de um influenciador e vê ali publicidade, seus dados estão sendo coletados e é assim que eles ganham dinheiro. E mesmo que não estejam sendo pagos, ganham produtos e benefícios. Eu não acho que isso seja ruim, mas creio que é algo que as crianças, que são o público que recebe esse tipo de conteúdo, realmente precisam entender: qual é a relação econômica envolvida nisso. Por serem espectadoras dessas mídias, elas são parte de uma relação econômica. Parece que é algo muito simples, pois tem-se a impressão de que elas estão recebendo algo de graça e, de certa forma, estão. Mas, por outro lado, estão fornecendo seus dados para essas mídias sociais. Isso permite que as empresas aprendam mais sobre elas e as direcionem para o que desejam de forma mais eficaz.  

Por isso é importante fazer perguntas para as crianças tais como: “Por que você acha que essa pessoa está dizendo isso?” “O que há por trás dessa ideia que ela está defendendo?”,“Quem está produzindo esse conteúdo?”, “E por quê?”. E eu acho que outra pergunta fundamental de se fazer é sobre a representação. É fazer as crianças pensarem que o objetivo não é apenas dizer as coisas, mas como se fala sobre elas, pois as mídias sociais são uma nova mídia (no sentido de representação desse mundo): elas estão nos contando uma história sobre o mundo em que vivemos. E também estão nos contando a história, ou melhor, contando aos jovens, a história do que significa ser jovem nos dias de hoje. É importante que eles percebam isso. No final, a escolha sobre o que as crianças fazem é delas. Você não pode realmente parar ou impedir que elas usem mídias. Você pode apenas ajudá-las a pensar sobre isso de uma forma mais ampla e esse é um bom objetivo para a educação, é nisso que eu acredito. 

E por fim, na sua opinião, qual seria o maior desafio de lidarmos criticamente com as mídias sociais? 

Eu creio que uma compreensão crítica das mídias sociais envolve uma certa dose de ceticismo, ainda que tenhamos de ser cuidadosos com os perigos que ele traz. Na verdade, essa compreensão crítica é o primeiro passo desse processo, que não é fácil. Isso demanda um profundo conhecimento sobre a natureza dessas mídias, uma análise rigorosa e um estudo cuidadoso, e também requer que façamos uma reflexão sobre o nosso uso pessoal dessas mídias, nosso investimento emocional e simbólico sobre elas, o que envolve uma consciência mais ampla de como a mídia se relaciona com o desenvolvimento histórico, social, político e cultural da sociedade. Por isso precisamos de programas de educação midiática bem sistematizados e com suporte das instituições, tanto para o ensino como para a aprendizagem desse tema. 

PARA SABER MAIS 

Sobre David Buckingham e ler os seus artigos acesse: https://davidbuckingham.net 

Januária Cristina Alves é jornalista, educomunicadora, ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, vencedora do Prêmio Vladimir Herzog e Direitos Humanos em 1990 e membro da UNESCO MIL Alliance. 
www.entrepalavras.com.br. 

Transcrição e tradução de Mauricio Rodrigues Pereira dos Santos. 

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