Um plano para resgatar o que se perdeu com a Covid-19

Num documento recente, o Banco Mundial sugeriu aos países que adotassem algumas medidas em curto prazo para fazer face às aprendizagens perdidas, dado o prolongado fechamento de escolas em boa parte do mundo em desenvolvimento. As medidas sugeridas incluem o desenho e a implementação de um sistema sólido de recuperação de aprendizagem em todos os níveis de educação, a criação de um instrumento aberto de aprendizagem adaptativa que possa avaliar as perdas e identificar as necessidades de todos os educandos. No mesmo sentido, propõe o texto a formulação de um plano de transformação digital que que procure enfrentar as limitações de infraestrutura vigentes e, ao mesmo tempo, use a tecnologia digital para acelerar o desenvolvimento de habilidades de leitura e raciocínio matemático.    

Evidentemente, estas medidas, junto com um investimento forte em formação dos professores para uma prática que incorpore as lições aprendidas da pandemia, inclusive para diminuir as desigualdades educacionais agravadas no período, devem integrar o conjunto de ações que os sistemas educativos precisarão adotar.  

Mas há muito mais o que fazer. Afinal, as crises são não apenas períodos de sofrimento, mas oportunidades para sairmos da zona de conforto e inovarmos. O incipiente trabalho das escolas com competências socioemocionais pode ajudar muito no esforço para lidar com problemas de saúde mental decorrentes do isolamento social, mas também ajudará a preparar os alunos para o mundo instável em que viverão sua vida adulta.  

Além disso, o papel do professor vai ser profundamente modificado nos próximos anos e, também neste sentido, a aprendizagem remota serviu como uma aceleradora de tendências. O ensino tradicional, com um professor como um mero fornecedor de aulas expositivas, já não fazia sentido antes do que vivemos. A transformação de seu papel para se tornar um assegurador de aprendizagens vai demandar dos mestres tarefas mais complexas – e a necessária formação profissional para tanto – como a de formar seus alunos para serem pensadores autônomos e aprendizes ao longo da vida.   

Para tanto será urgente, nos anos a seguir, que se torne a profissão mais atrativa, valorizando os professores e assegurando-lhes a possibilidade de trabalho colaborativo entre pares dentro de cada escola, mediante contratos que lhes permitam dar aulas num só estabelecimento – o que certamente beneficiará inclusive os alunos. Também será fundamental desenvolver nos docentes, em sua formação inicial e continuada, as mesmas competências que gostaríamos de ver presentes nos jovens no futuro, como corretamente estabeleceu o Conselho Nacional de Educação. Mas, o mais importante, será ajudar os professores a formar as novas gerações para o protagonismo juvenil necessário à construção de um planeta sustentável, mais justo e menos desigual. Sem isso, teremos perdido a chance de aprender com a terrível crise da Covid.  

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

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