E afinal, o que se comemora no mês do Livro Infantil?

O primeiro livro que li com a minha filha não era para crianças e ela ainda estava na minha barriga. Ao longo da gestação, as mulheres — uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde — entendem que não estão mais sozinhas. E foi assim, nos momentos de “solidão” das minhas leituras, que comecei a ler em voz alta com a nenê.   

Depois que ela nasceu, continuei a nossa rotina de leituras em voz alta, tentando agora fazer com que a criança estabelecesse um vínculo entre a minha voz e o meu corpo, com os nossos gestos. À medida que as semanas passavam e, rapidamente, ela ficava mais atenta aos estímulos, introduzi alguns livros infantis na tentativa, dessa vez, de ler para ela. Criamos nosso ritual noturno, embalando o sono com a voz que modula o tom para o relaxar.   

Semanas depois, já líamos à luz do dia, observando o objeto livro com o tato e o olhar. Aos seis meses, Valentina brinca com o livro como se fosse uma pelúcia ou mordedor. Ensaia o virar de páginas de mãos fechadas, amassa e testa a resistência do papel e experimenta os diferentes cheiros de cada objeto.   

Ainda não é possível dizer se ela gosta de ler e nada disso garante que ela de fato se tornará uma leitora. Mas, o estímulo me parece ser o ponto inicial de uma vida com livros. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2021 e realizada em 2019, traz uma fotografia do comportamento de leitura no nosso país. Dentre as inúmeras informações presentes na pesquisa, algumas são capitais: a maior população de leitores e leitoras do Brasil concentra-se entre crianças e adolescentes (de zero a dezessete anos). Essa turminha lê porque gosta; e recebe influência de educadores e educadoras, além de uma figura feminina importante (como mães e tutoras). Esses dois dados combinados podem indicar que tanto a escola como a família prestam um serviço muito importante para a formação das crianças brasileiras, seja no âmbito do desenvolvimento da competência leitora quanto no impacto afetivo construído por meio da relação tutora/leitor.  

E tudo isso chama a nossa atenção para a necessidade da formação contínua de educadores e educadoras, especialmente no âmbito da leitura literária — que é bastante diferente da instrumentalização da literatura, por exemplo. E, ainda, para o incentivo à leitura no âmbito familiar, para que o livro seja um objeto cada vez mais comum na casa de brasileiros e brasileiras.  

Neste sentido, o desafio é grande. A pesquisa também constatou que 48% da população brasileira não é leitora — considerando leitor “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos 3 meses”. O nível de leitura cai muito com o avanço da faixa etária. Se olharmos para a nossa pirâmide social — reportagem da BBC Brasil de dezembro de 2021 aponta que 90% da população brasileira ganha menos de R$ 3.500,00 —, grande parte das pessoas provavelmente não têm condições de incluir livros como um item de consumo na sua cesta básica mensal. Acrescenta-se a esse caldo dois anos de pandemia que, muito provavelmente, contribuíram para um agravamento dessa fotografia.  

O mês de abril, quando se comemoram os dias do Livro Infantil (internacional, em 02, e nacional, em 18), traz uma oportunidade para refletirmos a importância do contínuo estímulo à leitura dentro da nossa missão de formar cidadãos e cidadãs. E para pensarmos em como construir uma nação na qual o livro seja celebrado não apenas em um dos meses do ano, mas sim todos os dias. 

Isabel Lopes Coelho publisher de Literatura na FTD Educação. É também autora da obra A representação da criança na literatura infantojuvenil (Ed. Perspectiva, 2020), fruto da sua tese de doutoramento em Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP). Em  2012, recebeu o prêmio BOP – Best Children’s Publisher of the Year, concedido na Feira do Livro Infantil de Bolonha. 
     Coelho participa de eventos internacionais como convidada e palestrante, como o Salon du Livre et de la Presse Jeunesse (Montreuil, Fança, 2006 e 2012), o Minimondi (Parma, Itália, 2007), o I Encuentro Latinoamericano de Editores de Libros para Niños e Jóvenes (Bogotá, Colômbia, 2009), o FIL Rights Exchange Programm (Guadalajara, México, 2017), o Rendez-vous de Québec Éditions (Montréal, Canadá, 2018) e Sharjah Book Conference (Sharja, Emirados Árabes, 2019). Participou do Programme Courants du Monde (Paris, França, 2012) e foi bolsista no Fellowship da Internationale Jugendbibliothek (Munique,Alemanha,2015). 
      A publisher também ministra cursos e palestras sobre literatura infantil e sobre o livro ilustrado

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