Ocupações Urbanas

Ocupações urbanas como “a Casa”, de Os Estranhamentos, existem em diversos países, não apenas aqui no Brasil ou na nossa vizinha Argentina. Mesmo países considerados desenvolvidos, como grandes centros da Europa ou os Estados Unidos, também têm prédios abandonados ocupados. A diferença é que, ao contrário da maioria das ocupações brasileiras, nem sempre essas apropriações são motivadas exclusivamente pelo problema da falta de moradia.  
 
Lá fora, em cidades, como Berlim, na Alemanha, e Barcelona, na Espanha, apesar de em muitos casos as pessoas não terem onde morar, existem ocupações de origens diversas. Por exemplo, ocupações originadas de reivindicações políticas, ocupações por coletivos de artistas — como as mencionadas pela mãe de Martín — ou simplesmente ocupações de cidadãos que se recusam ou não podem pagar aluguéis muito altos. 

No Brasil, grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo concentram muitos prédios abandonados e muita gente vivendo na rua ou em condições precárias. Essa contradição acaba estimulando as ocupações. Hoje, com a pressão imobiliária, a capital paulista tem dezenas dessas apropriações principalmente na região central, mas também na periferia. A exemplo da Casa de Buenos Aires, onde o livro é ambientado, aqui também existem ocupações em que os moradores precisam pagar aluguel aos “chefes” do pedaço. Foi um prédio administrado dessa maneira, aliás, que chamou a atenção para as ocupações, infelizmente por um motivo bastante trágico. Em 2018, devido às péssimas condições de conservação, o edifício ocupado Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, pegou fogo e desabou, deixando sete mortos e dois desaparecidos. A forma como os moradores precisavam pagar para morar em situação tão precária não chega a ser uma exceção nessas moradias, mas também não se pode dizer que seja a regra. Ainda em 2018, depois do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, a prefeitura de São Paulo fez uma vistoria em mais de cinquenta prédios ocupados e produziu um relatório que dizia que as condições das ocupações paulistanas eram melhores do que o esperado. 

Existem movimentos que ocupam prédios abandonados para reivindicar o direito à moradia no Brasil. Como a lei brasileira prevê que a propriedade deve ter uma função social, há casos em que, graças a parcerias com o poder público, esses movimentos conseguem regularizar as ocupações, que passam a ser moradias definitivas. 

Vida como qualquer outra 

Vitória Ester, de dezesseis anos, vive em uma ocupação administrada por um movimento no centro de São Paulo. O prédio é organizado e os moradores são solidários. Eles se revezam na limpeza dos andares e decidem os destinos da comunidade em assembleias. Diferentemente da Casa, onde vive Martín, não há pessoas morando nas áreas comuns. Ninguém precisa retirar seu colchão durante o dia para a passagem dos demais moradores. Quando era pequena, Vitória morava com os pais em outra ocupação. Durante um período, não havia luz elétrica nem água encanada no prédio. Cada andar tinha um barril com água para consumo próprio e para as tarefas domésticas. Os moradores precisavam descer quantos andares fossem necessários de escada para chegar ao banheiro do térreo. Depois a situação mudou. A família de Vitória acabou indo para uma ocupação considerada modelo. Ela diz que gosta de morar lá porque, além dos amigos, no prédio há muitas áreas de lazer, como uma quadra e um salão de festas, e atividades comunitárias. Os muros e paredes internas são cheios de grafites feitos por artistas de outras localidades que sempre aparecem. Atrair gente de fora como artistas e pesquisadores é uma das características do lugar. Vitória tem uma bolsa de estudos em uma escola particular. Ela está na segunda série do Ensino Médio. Na escola, todo mundo quer saber como é viver em uma ocupação. “É normal, eu respondo!” A menina tem razão. Querem ver? Pensem no lugar como um “estranhamento”. Agora imaginem uma ocupação como um condomínio: cada um tem sua casa, existem áreas comuns e todos devem seguir regras de convívio. Não é tão diferente, né? 

Mesmo assim, Vitória e seus amigos, como Gabriela, de vinte anos, Gabrielle e Gabriel, ambos de treze, dizem que sentem algum preconceito por viverem ali. Eles admitem que, algumas vezes, até sentem vergonha, mas, de modo geral, todos têm orgulho do lugar onde moram. Como todo adolescente, eles dividem seus dias entre os estudos e o lazer. Quase como Martín e Vladi, que vão ao parque para correr de kart, Vitória e seus amigos frequentam uma praça cheia de skatistas que tem ali do lado. E alimentam seus sonhos. O de Vitória é se tornar arquiteta. 

 Créditos da foto: Vinicius Galera
Créditos da foto: Vinicius Galera 
Gostou do tema? Aproveite para debater em sala de aula ou com a família! 

Compartilhe com educadores e gestores! 😉

Créditos: Vinicius Galera. 

Conteúdos extraídos do livro “Os Estranhamentos”

Você gostou?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

Veja mais conteúdos que podem te interessar:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: