Repensando o Fundamental 2

Depois de um longo tempo fechadas, as escolas começam a voltar às atividades, mesmo que em regime de rodízio, e os adolescentes estão sendo vacinados. Nada está sendo fácil e tampouco é tranquilo viver esta fase tão interessante da vida, em que buscamos entender quem somos e adquirir uma identidade diferente da que nossos pais tentam nos atribuir, durante uma das maiores crises que o Brasil viveu em sua história recente.

Para os adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade, os desafios já eram grandes, antes mesmo da COVID, mas mesmo estes passaram a enfrentar transtornos ainda maiores, com a retomada do trabalho infantil, a fome, o cuidado de irmãos menores e as dificuldades de aprender à distância sem conectividade, equipamentos ou livros. Outros tantos também tiveram dificuldades, enclausurados em apartamentos inadequados para uma permanência prolongada de toda a família e passaram a enfrentar um tempo exaustivo de aulas on-line, sem acesso presencial a colegas, tão importantes nesta fase da vida, assim como a professores e mentores.

Infelizmente a saúde mental sofreu com isso tudo, fazendo com que os índices de ansiedade e de suicídio aumentassem, na mesma proporção do adoecimento que acometeu aqueles que não conseguiram se manter distantes de vida social por tanto tempo. Curiosamente, o rompimento do vínculo com a escola fez com que, por outro lado, muitos tenham se desengajado das tarefas escolares à distância e resistiram a voltar às aulas presenciais, inclusive dada a nova identidade e prestígio familiar adquiridos por meio do trabalho.

Assim, o retorno aos colégios está sendo um processo delicado e as redes públicas e as escolas particulares devem olhar para este momento com redobrada atenção à saúde mental dos adolescentes (e de seus mestres) e reconectá-los com a vida escolar. Vale aqui também um conselho de Paulo Freire: tornar o ensino mais significativo ligando-o ao que os alunos vivenciam. Ao invés de tornar a pandemia um tabu ou algo de que falamos rapidamente para depois voltar ao ensino “sério”, trazê-la para o centro das aulas, num processo de aprendizagem interdisciplinar, a partir do que foi vivido por eles e suas famílias. Aprender sobre o que é a COVID-19, o que é vírus e suas mutações, a história de outras pandemias e seus impactos na vida das sociedades, pode ser uma boa estratégia de priorização curricular.

Mas isso não será suficiente. Temos que criar um ensino mais adequado para adolescentes, para esta rica fase do desenvolvimento humano, que não só os façam aprender mais, como os eduque para valores e os prepare para o mundo em que vão viver. Neste sentido, o Fundamental 2, o grande esquecido das transformações educacionais, precisa ser repensado. Afinal, concebeu-se um novo Ensino Médio e as melhorias em aprendizagem, mesmo que insuficientes, que tivemos nos últimos anos, são bem maiores nos anos iniciais do Ensino Fundamental que nos anos finais, de acordo com os dados das avaliações nacionais.

Precisamos de fato desenhar uma nova escola para adolescentes, em turno único, com muita interação entre eles, professores atraídos e preparados para a etapa, Educação mão na massa, incorporando as novas tecnologias e fortalecendo o ensino de resolução colaborativa de problemas com criatividade, essencial para a fase e para a construção do futuro. Os adolescentes merecem!

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

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