Preparar os jovens para a vida ou para o mundo do trabalho? – por Claudia Costin

Muitas vezes se discute, em Educação Básica, se a intenção é preparar os jovens para a vida ou para o mundo do trabalho. Esta é uma falsa discussão; afinal formar para a vida inclui educar para a autonomia e ninguém é autônomo se não se integra profissionalmente no mundo adulto e depende economicamente de outros. 

Esta discussão ganha especial relevância no contexto da chamada 4ª Revolução Industrial, em que, como projetam Osborn e Frey, da Universidade de Oxford, dois bilhões de postos de trabalho serão extintos até 2030, em ondas sucessivas, obrigando os jovens a constantemente adquirirem novas competências e a, com certa frequência, revisitarem suas escolhas profissionais.

Isto significa que teremos que adotar, no Ensino Médio, apenas itinerários formativos profissionalizante? Certamente que não, embora faça sentido abrir esta possibilidade a mais jovens. Mas mesmo nos itinerários propedêuticos – preparatórios para o Ensino Superior – é fundamental discutir com os alunos opções profissionais, desenvolver reflexões sobre aprendizagem para toda a vida e mesmo introduzir eletivas que contenham um caminho de profissionalização, como programação ou “webdesign”, nos moldes do que está previsto no currículo paulista recentemente aprovado.

É importante entender que, no novo contexto em que vivemos, as profissões poderão ser provisórias e que o mundo educacional do futuro muito provavelmente incluirá micro certificações, valorizando saberes independente de uma profissão de referência. Em outros termos: aquilo que aprendemos em uma etapa de vida pode vir a construir para a seguinte.

Assim, trabalhar com o projeto de vida é um caminho importante, independente do itinerário formativo selecionado pelo aluno e a BNCC corretamente prevê isto já a partir do Ensino Fundamental. Ela também remete à importância de se aprender a aprender, um dos pilares da Educação de acordo com a UNESCO e que será particularmente útil para um mundo do trabalho em um processo de transformação disruptiva.

Mas é bom lembrar também que tais competências serão também importantes para outras dimensões da vida, como para uma cidadania ativa e empática com os que passam por dificuldades, assim como para uma relação de fruição do belo e instigante, de acesso constante com o mundo das artes. As expressões artísticas registram e refletem o tempo em que são produzidas e poder apreciá-las demanda de cada um de nós um olhar e uma escuta qualificada. E isso também é papel da Educação!

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

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