A defasagem escolar e a retomada das aulas presenciais

A Educação Brasileira vinha buscando há anos enfrentar dois desafios grandes com que se defrontava, já antes da pandemia: a crise de aprendizagem e as profundas desigualdades educacionais. Com o surgimento da COVID-19, os dois problemas não apenas foram iluminados pelos dados iniciais divulgados pelas redes públicas de ensino de avaliações diagnósticas, como, acentuaram-se de forma importante.

Quando se olha, separadamente, para cada um dos dois, perde-se a perspectiva de que se trata de problemas sistêmicos que têm conexões e se alimentam um do outro. Juntos configuram o que se passou a chamar de defasagem escolar, ou seja, a distância entre o que o aluno sabe e o que deveria saber em determinada série da Educação Básica ou idade. Neste sentido, dialoga com outro fenômeno relacionado que é a defasagem idade-série, o fato de que o aluno tem dois anos ou mais do que a idade correta para a série cursada.

As soluções para a defasagem escolar terão que lidar com três questões importantes para se assegurar uma Educação de qualidade: acesso, permanência e aprendizado, em outros termos: garantir que todos se matriculem na escola e ali permaneçam, com os aprendizados previstos para cada idade.

Infelizmente, demoramos muito, no Brasil, para universalizar o acesso ao Ensino Fundamental e isso trouxe consequências importantes, pois a escolaridade dos pais impacta as chances de sucesso escolar das crianças. Se pensarmos que a universalização do acesso ao Ensino Fundamental só se deu na primeira década do século 21, fica claro o tamanho do desafio.

Isso é particularmente sério, já que, uma das mais importantes razões para a desigualdade social é a Educação. E, de fato, não há como enfrentar as enormes desigualdades sociais do país sem enfrentar as desigualdades educacionais.

Nestes tempos de retorno progressivo às aulas presenciais, este será certamente o maior desafio: não só recuperar as aprendizagens perdidas com o isolamento social, mas garantir que todos estejam na escola, aprendendo o esperado e, ao mesmo tempo, diminuindo as desigualdades educacionais agravadas com a pandemia. Para tanto, será necessário fortalecer o papel do professor, profissionalizando-o e valorizando-o face aos novos desafios. Teremos que pensar em aulas que reengajem os jovens, o que pode ser facilitado com um tema proposto pela BNCC, o projeto de vida do aluno. Será também importante criar um sistema de recuperação de aprendizagens inovador, com apoio de tecnologia e com a possibilidade de personalização, para lidar com os diferentes níveis em que os alunos estarão no retorno às aulas.

Tarefa gigantesca, mas com boas políticas públicas e apoio às escolas, certamente poderemos nos desafiar a fazer!

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

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