Dislexia e TDAH

Posso lhe fazer um convite? Imagine aquele primeiro dia de aula do ano letivo. Você recebe a famosa “lista dos estudantes especiais” com nomes que ainda não conhece, relatando transtornos que tampouco lhe dão qualquer referência. Contudo, a aula começa agora, daqui a cinco minutos. Quem nunca teve essa experiência? Tenho absoluta certeza que você se lembrou das inúmeras vezes que viveu algo parecido.

Marília Piazzi Seno, fonoaudióloga e psicopedagoga, conclui brilhantemente sua pesquisa com professores da rede municipal do interior de SP dizendo que “apesar do professor não ter conhecimento teórico suficiente para discorrer com propriedade sobre o TDAH, sua prática escolar lhe permite observar, analisar, levantar hipóteses e adaptar sua metodologia independente do que o sistema lhe oferece; possibilitando que esse aluno tenha suas diferenças respeitadas e seja realmente incluído na sala de aula regular”.
A prática realmente nos oferece ferramentas para adaptarmos nossas aulas e atividades, porém, a que custo? Quanto precisam se sacrificar estudantes e professores até que encontrem o melhor caminho? Não precisam, se considerarmos seriamente o desenvolvimento de professores que incluam esse assunto. Todos são beneficiados: estudantes, família e professores. Por isso, estendo meu convite para que juntos conheçamos um pouquinho mais sobre TDAH e dislexia e algumas práticas que podemos ter em sala de aula com estudantes com esses transtornos.

O que é TDAH?
De acordo com a Associação Brasileira de Déficit de Atenção, “O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em Inglês, também é chamado de ADD, ADHD”.
Comumente confundido com falta de limites, preguiça ou falta de vontade, o TDAH traz ao estudante dificuldades na escola e fora dela. São pessoas muito distraídas, que se movem o tempo todo, que perdem prazos e possuem dificuldades em se concentrar, porém muitos deles apresentam habilidades extraordinárias para assuntos que se identifiquem ou lhes tragam grande interesse.

O que é Dislexia?
De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia, “A Dislexia é considerada um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração. Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e às outras habilidades cognitivas”.
Geralmente identificada no momento da alfabetização, a dislexia é caracterizada por sintomas como espelhamento de letras, trocas de letras, dificuldades com o reconhecimento de sons, leitura lenta e falta de interesse pela leitura. Por outro lado, o estudante disléxico possui habilidades brilhantes como ter uma mente questionadora e criativa, um pensamento analítico e conseguir facilmente encontrar diferentes estratégias para novos desafios.

O papel do professor no diagnóstico
Você já deve ter ouvido falar que “professor nunca dá diagnóstico”. O que isso efetivamente significa levando em conta o quão importante é o papel do professor nesse processo?
Segundo Gabriel Coutinho, no artigo publicado pela ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção), “o diagnóstico de TDAH será sempre responsabilidade do clínico e jamais de professores. Porém, os professores trazem consigo um considerável ‘banco mental’ de comportamentos que ocorrem com maior ou menor frequência em faixas etárias específicas, o que permite a identificação daqueles alunos com comportamentos discrepantes dos demais”.
Isto é, vai partir do professor a queixa e identificação dos sintomas não só do TDAH como de qualquer outro transtorno do desenvolvimento e da aprendizagem. Estas serão levadas até a coordenação da escola, que entrará em contato com a família pedindo uma avaliação multidisciplinar. Esta equipe geralmente conta com psicólogos, psiquiatras, psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicomotricistas, dentre outros profissionais.
Esta avaliação resultará em um diagnóstico preciso que será encaminhado à escola e disponibilizado para a leitura de todos os professores e profissionais que lidam com esse estudante na escola. A partir disso, o ideal seria que a família mantivesse o tratamento terapêutico e, se necessário, medicamentoso de acordo com as instruções dos profissionais responsáveis.
Os profissionais responsáveis pelo tratamento devem estar em constante comunicação com a família e com os professores para instruí-los e coletar dados dos resultados a partir das intervenções realizadas.
Porém, você deve estar se perguntando se eu perdi a noção da realidade e hoje vivo no país das maravilhas ao lado de Alice e do Chapeleiro Maluco. Eu até gostaria, já que a realidade me assusta um pouco mais, mas não. Sei muito bem que isso raramente acontece nas escolas brasileiras e, ouso dizer, do mundo. Acredito que a partir de um diagnóstico, ou até mesmo tendo observado alguns sintomas em seus estudantes, há algumas intervenções que podem ser feitas por nós professores. Por isso, vamos ao próximo subtítulo.

Intervenções em sala de aula
Em Essential Teacher Knowledge, Jeremy Harmer destaca que a motivação é essencial para a aprendizagem e que tudo vai depender do equilíbrio dos exercícios e atividades – como envolvemos os estudantes, como os motivamos a estudar e as oportunidades que promovemos para que eles ativem seu conhecimento. (HARMER, 2012, tradução nossa) ¹
É esta a importância de entender o transtorno para aí sim planejar as possíveis intervenções. Vamos analisar algumas ideias a partir da literatura apresentada e da minha prática com estudantes com TDAH e disléxicos.

  • Para estudantes com TDAH:
    1) Criar uma rotina escolar;
    2) Focar em motivações relevantes;
    3) Ajudá-los a planejar os estudos de forma efetiva e real;
    4) Elogiá-los sem exageros a partir de conquistas reais;
    5) Criar momentos de pausas durante a aula, os chamados brain breaks.

  • Para estudantes com dislexia:
    1) Substituir atividades para formatos de áudio e orais;
    2) Criar oportunidades de produção e compreensão orais durante a aula;
    3) Promover trabalhos em duplas e/ou trios;
    4) Planejar momentos de revisão constantes durante as aulas expositivas;
    5) Garantir que o estudante saiba como estudar sem precisar ler textos atrás de textos. Exemplo: oferecer opções de podcasts, videoaulas, dentre outras.

O constante desenvolvimento de professores traz ao contexto da sala de aula em geral benefícios grandiosos. Dentro do tema da inclusão, estudantes aprendem melhor, professores deixam de viver uma rotina frustrante e todos os estudantes se beneficiam de um ambiente inclusivo e pacífico. Entender o que acontece no processo de aprendizagem de todos os nossos estudantes é fundamental para qualquer planejamento de aula. Todos merecem estar envolvidos e a aprendizagem é um leque gigantesco; não há só um modelo para aprender. Fica aqui o meu último convite: Por que não explorar diferentes formas beneficiando a todos e tornando o dia a dia escolar ainda mais dinâmico?

Escute o podcast exclusivo sobre o tema com a participação de Priscila Vicente.

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