Representatividade e pensamento crítico no ensino de idiomas.

Será que o ensino de Inglês no Brasil contribui para entendermos a diversidade que existe por trás do idioma ou só reforça estereótipos?  

 
O novo episódio do Evolution Teacher Talks convidou uma grande estudiosa quando o assunto é representatividade e idioma: Ilá Coimbra. 

O papo, além de muito informativo, trouxe várias sugestões e iniciativas que você, professor, pode aplicar hoje mesmo no seu planejamento. Além de estimular um novo jeito de pensar e ensinar o Inglês. 

 
Venha ouvir e ler com a gente! 

 
Abaixo, nossa audiodescrição.

Transcrição Evolution Teacher Talks Episódio 5 – 3ª Temporada

IC – Ilá Coimbra 

GF – Gabriel Falk  

(intervenções simultâneas) – falas ao mesmo tempo  

[correções] – correções de conteúdo  

[inserções] – palavras ou trechos faltantes  

[Música] – pausa musical 

[Música] 

Gabriel Falk: Oi ouvintes! Eu sou o Gabriel Falk, sejam bem-vindos a mais um episódio do Evolution Teacher Talks, um podcast da StandFor, o selo de língua inglesa da FTD Educação. Todo episódio eu convido professores e profissionais do ensino e aprendizagem de idiomas, e hoje a gente vai conversar novamente com a Ilá Coimbra, e dessa vez nós vamos falar sobre representatividade e pensamento crítico no ensino de idiomas. Em alguns episódios dessa temporada, junto com algumas pessoas convidadas, a gente fez a audiodescrição, onde eu falei que eu sou um homem branco, loiro, hétero, de origem europeia e que precisou furar a bolha social para entender o grau de privilégio e representatividade que eu tinha dentro e fora da sala de aula. E pra você, o que que é representatividade? Por que é tão importante a gente falar sobre ela hoje em dia? Como podemos e devemos abordar ela dentro do processo de ensino e aprendizagem de idiomas? Bom, eu não consigo te trazer essas respostas sozinho, e por isso que hoje nós temos a companhia da Ilá para fazer esse bate-papo. Eu vou apresentar ela para vocês e a gente já começa o episódio. A Ilá é formada em Letras Português-Italiano pela Universidade de São Paulo e atua como professora de inglês e português como língua estrangeira desde os anos 2000. Formadora de professores de inglês desde 2011, Ilá é tutora assistente do curso Celta em Cambridge e Munique, na Alemanha. Tendo pesquisado sobre inclusão e diversidade desde 2016, é uma das fundadoras do grupo de estudos especiais para inclusão na área de inglês como língua estrangeira, Voices SIG, ligado à associação BRAZ-TESOL. E é uma das diretoras do projeto Raise Up!, que foca em desenvolvimento de materiais inclusivos para o ensino de língua inglesa.  

[Música] 

GF: Oi Ilá, obrigado por topar o nosso convite. Tá animada pra esse bate-papo? 

Ilá Coimbra: Sempre, Gabriel! Eu que agradeço esse segundo convite, sinal que eu fiz um bom trabalho no começo, o que me deixa muito feliz. 

GF: Fez um ótimo! 

IC: Tô super animada, é uma coisa que eu realmente gosto muito de falar, e é um tema que é muito caro pra mim, definitivamente. 

GF: Ilá, estudando qual que seria o melhor ponto de partida desse episódio, eu pensei da gente falar sobre o conceito de representatividade, ou melhor, como que você costuma fazer essa definição. De um jeito super leigo e bem simplista, quando eu penso em representar algo, eu automaticamente associo com um senso de visão, e é como se eu visse uma coisa ou pessoa que se parecesse com algo que eu já conheço. Como que a gente pode definir o conceito de representatividade, se é que tem como a gente definir de uma forma rápida e simples? 

IC: Olha Gabriel, eu acho muito importante eu também fazer minha autodescrição, e quando a gente fala de representatividade a gente tem que saber quem á falando sobre isso né. E eu também sou uma mulher branca, heterossexual, de origem europeia, de classe média, e apesar de eu ter vivido na classe média, ao menos eu fui para escola pública, então eu tenho uma vivência da escola pública também. E hoje eu moro na Europa, né, então tudo isso tem muito a ver com como a gente vê e é visto pelo mundo, né. Eu gosto muito de sempre apelar pra dicionário. Como uma boa professora e estudante de línguas, constantemente, eu sempre gosto muito de dicionário. Então, se a gente for no dicionário e der uma olhadinha no que representatividade significa, uma das definições que eles dão é: que “a representatividade é a qualidade que uma pessoa, um grupo, uma entidade ou um organismo tem de defender ou representar os interesses de outros grupos, ou exprimir-se em seu nome”. Então a gente tem a ideia mesmo, quando a gente pensa em representatividade, de um pedaço daquele grupo, um pedaço daqueles interesses em outro lugar. Acho que é isso que a gente tem que ter em mente. Quando a gente pensa em representatividade em sala de aula, o que a gente tá pensando é, realmente, de você ter pedaços de todos os grupos que estão na sociedade dentro da sala de aula. E aí a gente se questiona o quanto desses pedaços estão ali como alunos e o quanto eles estão ali enquanto material didático, tema, quantos interesses desses pedaços estão sendo lidados ou não dentro da sala de aula… então, se a gente partir da definição do dicionário, a gente consegue imaginar bem o que é a representatividade ou a falta dela. 

GF: E é bem interessante, porque a fala da representatividade, é claro que a gente vai entrar bem mais no detalhe agora, pensando dentro da sala de aula, e eu até queria saber um pouquinho, porque na tua introdução eu falei, né, que você já trabalha lecionando, ali, desde os anos 2000, então eu acredito que com tanto contato de professores, materiais didáticos, você acabou acompanhando e até contribuindo muito com a evolução dessa discussão, mas a representatividade hoje, ela não faz parte apenas ali do discurso do que precisa ser trazido dentro da sala de aula, né, mas também, acho, que como sociedade, quando a gente vê em termos midiáticos, em termos de música. Acho que esse processo não acontece, digamos, dentro da instituição de ensino e fora é como se isso não conversasse, é algo muito paralelo, digamos. E se a gente voltar um pouquinho no tempo, e considerar ali todos os processos, desde que você começou a lecionar até os dias atuais, como que você enxerga que a representatividade vem sendo abordada, ou a forma como a representatividade é abordada dentro da sala de aula vem mudando, ou vem ganhando um pouco mais de protagonismo? 

IC: Olha, é uma pergunta bem ampla, e que eu acho que dá até pra ir até mais para trás ainda, de quando eu era aluna mesmo, né. A gente tem que pensar, primeiramente, em dois contextos de ensino de língua inglesa. Um é o contexto da escola, da sala de aula, da escola regular, em que a gente tem aula de inglês como parte do nosso currículo regular. E o outro é o ensino de língua inglesa pra adultos, que é a minha especialidade, que é onde eu atuo de forma mais comumente, digamos assim. Então, se a gente pensar, na verdade, na sala de aula, e aí eu quero voltar lá quando eu era aluna da escola pública, lá em São Paulo… eu consigo ver hoje, com esse distanciamento um pouco crítico, como as coisas mudaram. Não só em termos de material didático, e figuras representativas dentro do material didático, mas também o discurso da escola pública com relação a grupos que são minoritarizados, né. Então eu lembro de ter textos, na minha época de primeiro grau, né, de primeira a segunda série, que hoje eu nem sei mais o que é, de ter textos assim bem complicados, e mesmo leituras de autores que hoje em dia estão sendo relidos como trazendo, por exemplo, a questão da escravidão como uma coisa completamente normalizada, e hoje está sendo discutida na escola pública. Os materiais didáticos da escola pública, e mesmo o Plano Nacional do Livro Didático, o PNLD. Ele tem diretrizes extremamente progressistas, extremamente inclusivas, e que ajudaram muito a mudar essa representatividade da sala de aula da escola pública, da escola base mesmo. Claro que a gente deve isso, ali ao Paulo Freire, que foi o nosso secretário de Educação por alguns anos e realmente fez mudanças estruturais, que eu como aluna acompanhei. Infelizmente, essas mudanças não estão acontecendo no mesmo ritmo na sala de aula de adultos. Isso tem muito a ver com a questão das editoras, e até, eu entendo, eu sempre deixo bem claro que eu entendo o lado das editoras; trabalharem com livros globais, e exigências de mercado desse mercado global. Então, realmente, as editoras ficam um pouco de mãos atadas, porque se algumas coisas forem feitas no livro didático, ele não vai ser vendido em grande parte do mercado mundial. E aí eu acho que vai de acordo com o que você comentou, da sala de aula estar ligada à sociedade, né. Então, definitivamente, essa falta de representatividade que a gente tem na sala de aula de adultos de língua inglesa, ela tá muito ligada a como esses grupos que não são representados são vistos pela sociedade como um todo. 

GF: Ilá, eu sempre acho que a gente precisa ser crítico e ter o coração aberto para aceitar feedbacks e entender como melhorar. Como escola, como instituição, como pessoas, como profissionais a gente sempre precisa melhorar. E eu gostaria que, de uma forma muito transparente, você falasse, não só para mim mas para os ouvintes também, o que que a gente ainda precisa melhorar em termos de abordagem de representatividade dentro da sala de aula? A gente falou sobre o conceito de representatividade, como que ele conversa com a sala de aula e com o professor, mas a gente também precisa da autocrítica, entender onde precisamos melhorar, e na tua opinião, onde que a gente pode começar a melhorar, ou quais são os principais pontos, ou talvez os mais críticos, que a gente precisa começar a endereçar desde já? 

IC: Definitivamente, essa conversa que a gente está tendo aqui, e o podcast que a FTD produz, já é um grande começo, né. Porque a gente trabalha com formação de professores, então a gente não pode esperar que um professor comece do nada, do zero, a mudar esse cenário dentro da sala de aula sem que haja a formação para isso. Então eu acho que a primeira coisa que a gente tem que pensar é como a gente trabalha isso com formação de professores, né. Esse podcast é um ótimo exemplo, depois no final do podcast posso falar um pouco mais sobre as instituições de professores, como o BRAZ-TESOL, por exemplo, que tem o seu setor, pequeno, mas tem seu setor de escola pública, e todos os outros setores também, de Business English, educação para adultos e etc., e as outras instituições internacionais, que estão começando cada vez mais, de 2015 pra cá, cada vez mais falando sobre essa falta de representatividade na sala de aula, né, então eu acho que esse é um começo, treinar professores. Mas, se eu tiver que dar uma regra, assim, pra começar a ser usada amanhã, essa representatividade a gente muda da forma mais fácil e rápida com imagens. Com imagens narrativas que a gente traz para a sala de aula. Então substituir uma imagem que está no livro por uma outra imagem, que a gente acha no Google, a gente acha em banco de imagens, substituir um texto pruma narrativa de um grupo minoritarizado, por exemplo… eu acho que eu são os passos mais básicos, mais fáceis e mais seguros pra gente trazer para a sala de aula. 

GF: É muito interessante a tua fala, Ilá, porque quando eu olho, por exemplo, para a terceira temporada do Evolution Teacher Talks, tem um episódio com a Fernanda Liberali, aonde vai ser abordado o conceito de agência. E, falando sobre o conceito de agência, e pensando ali em materiais didáticos, eu penso na minha experiência, vindo do interior do Paraná, sul do Brasil, uma cidade colonizada por alemães, poloneses e ucranianos, e pegando materiais didáticos e vendo só pessoas iguais a mim, idênticas a minha audiodescrição: pessoas brancas, hétero, loiras, né. Bem europeizada essa visão, e o quanto que a discussão de representatividade nunca foi uma preocupação minha. Nenhum professor, por exemplo, trouxe um paralelo do tipo: porque que a gente está usando esse exemplo e não estamos usando o de uma pessoa negra, por exemplo? Ou até mesmo de um homossexual. Sempre uma visão muito parecida com o Gabriel Falk, nunca alguém diferente. E até mesmo, e aí é muito difícil criticar meus pais nesse momento, mas nem dentro de casa isso era incentivado, esse discurso, a gente tem que ter maturidade também para ter essa discussão. E, pensando no papel do professor, que está ouvindo a gente e tem uma experiência, um contato, um convívio dentro de uma instituição de ensino, dentro de uma escola, e até então, dentro da escola dele não se é discutido, por exemplo a representatividade, entre professores, entre a gestão da escola e os professores, entre os professores e os alunos, por exemplo. Como que o professor poderia começar a incentivar que essa conversa existisse, e quais são as principais diferenças entre você abordar isso com a gestão da escola e você abordar isso com alunos? Como dar esse primeiro passo, que pode parecer tão difícil? 

IC: Tudo depende muito da instituição onde você trabalha e do contexto onde você atua, né. Se você pensar na escola pública, essas discussões já estão aí. Se você pensar na escola básica privada, essa discussão vai esbarrar muito na filosofia da escola. Dependendo de você ter uma escola religiosa, se você tem uma escola que, apesar de ser particular, está na periferia… então tudo isso, esse começo, depende do contexto onde você tá, das regras da instituição, onde a escola está inserida, a comunidade em que a escola está inserida, etc. Mas nada disso impede a gente, enquanto professor, de trazer isso pra sala de aula, não necessariamente como uma forma de discussão, ou com uma forma de “vamos falar sobre isso”, mas tentando normalizar esses grupos dentro da sala de aula, como eles são normais na sociedade. Por exemplo, vamos falar sobre viagens, por exemplo, pra trazer todo o vocabulário de viagem, as frases prontas de viagem, ou a gramática, né, de “how much?”, “how many?”, e essas coisas. Por que não trazer uma viagem, uma família viajando ou um grupo viajando, que seja um grupo mais diverso, ao invés de só pessoas brancas? Ou mesmo por que não trazer uma localidade, pra onde as pessoas estão viajando, que não seja o eixo Estados Unidos-Inglaterra? Pode ser uma África do Sul, pode ser uma Índia, onde se fala inglês também. Então, é a gente trazer essas coisas da forma como a gente traria qualquer outro material extra. Eu acho que essa atitude, da normalização dos grupos minoritarizados, das pessoas que estão ausentes na representatividade, eu acho que é um passo super seguro pra citar, porque você não tá trazendo nenhuma discussão. Uma outra forma segura de se fazer isso, sem esbarrar em nenhum problema com professores e instituição, pais de alunos etc., é a gente fazer com que os alunos tragam isso pra gente. Então, por exemplo, um exemplo que eu gosto muito de dar é a family tree, né, a árvore genealógica, que é representativa de tantos estereótipos do que é normal. Família branca, hétero, classe média, jovem, com cachorro. Pegar essa família que tá ali, representada de uma forma tão “normal” entre aspas né, entre grandes aspas, e perguntar para os alunos: ok, essa aqui é uma família que está sendo representada. Que outras representações de família a gente tem? Que outros tipos de família? Como o teu tipo de família é diferente do que tá nessa folha de livro didático? E aí a gente vai para o pensamento crítico, e é aí que a gente tem essa junção da representatividade com a estimulação do pensamento crítico na sala de aula. 

GF: Interessante, porque na tua fala falando sobre, e até na tua audiodescrição, na verdade, você comentou que, mesmo vindo de classe média, você teve uma experiência com escola pública. Eu estudei por 15 anos da minha vida, durante o ensino regular, em escola privada. Tive esse privilégio, e quando eu fui para a universidade, fui pra universidade pública, fiz a Federal do Paraná, e pra mim foi um choque. Desde pessoas com quem eu convivia, realidades sociais, econômicas… eu acho que, realmente, isso é uma quebra pro pensamento crítico, mesmo. Você fala, nossa, realmente, o mundo é muito maior do que aquele colégio com as centenas de pessoas iguais ao Gabriel, que ele estudou por 15 anos da vida dele. Você tá falando sobre introduzir isso de uma forma natural dentro da sala de aula, e um ponto que eu penso é também um pouco sobre a frequência, né. Porque não adianta o professor escolher uma data, “dia dezesseis de novembro eu vou trazer esse conteúdo”. 

IC: Vinte de novembro (risos).  

GF: “E é nesse dia que eu vou falar sobre isso, e o resto do ano eu vou usar o material didático como eu recebi”, sem pensar nesse processo. Pra mim parece um processo diário, de você trazer isso com frequência, é o hábito né. 

IC: Isso, exatamente. A ideia da gente ser um professor que forma aluno criticamente, ser um professor que usa a educação enquanto ferramenta pra tentar tornar a sala de aula, e a sociedade, um pouco mais justa e um pouco mais correta, no sentido de representar de forma mais correta o mundo em que a gente vive, na verdade é uma forma de pensar, é uma forma de você ver o ensino, é uma forma de você ver o que é normal, é uma forma de você entender o que o conceito de “normal” exclui. E é engraçado, que eu estava dando um workshop de treinamento aqui em Munique, falando sobre isso, sobre material didático, e uma professora levantou e falou: “nossa, mas pra eu fazer isso, eu preciso questionar todos os meus conceitos do que é normal”. E eu achei genial essa fala, porque é isso. A gente, enquanto professor, tem que questionar a nossa definição de normalidade, né. E, realmente, é uma atividade diária, e é a ideia que a gente tem de formação crítica: é fazer esse pensamento diário, pra gente conseguir olhar para as coisas que são dadas como normais e costumeiras, e ver, além daquela normalidade, o que que aquela normalidade está fazendo, quem ela tá incluindo, excluindo. E treinar o nosso aluno pra que ele tenha essa visão, não só com material didático, não só com a sala de aula, mas com a sociedade. E aí você entra na questão do Paulo Freire, que diz que a educação é uma ferramenta de mudança social. Porque a gente tá ali, empoderando o aluno para sair da sala de aula e ver a sociedade de forma crítica, e tentar tornar ela uma sociedade mais justa. 

GF: Ouvindo tudo o que você falou, Ilá, eu fico pensando no papel do professor no desenvolvimento do pensamento crítico do aluno. Quantas vezes quem tá ouvindo a gente aqui já não ouviu a frase do “ah, esse aluno foi influenciado por aquele professor que pensa de tal jeito”. E aí, eu queria entender um pouco, por que parece ter uma fronteira muito difícil, de talvez enxergar o papel e o quanto é necessário o professor incentivar o desenvolvimento do pensamento crítico, e o quanto a influência do professor é forte na maneira como o aluno vai enxergar a sociedade, cultura, e assim por diante. Como que você enxerga tudo isso, Ilá? 

IC: A melhor forma de responder a essas pessoas que acham que o professor doutrina ou influencia o aluno desse jeito é: a gente não consegue nem fazer aluno ler um texto, gente. Como é que a gente vai doutrinar, ou mudar a opinião dos alunos? A gente não consegue fazer eles nem fazerem homework. Quem é a gente pra mudar alguma coisa, né, de forma tão profunda assim? Acontece, quando a gente pensa no que Paulo Freire pensou enquanto educação, a gente usa o aluno enquanto o material. O centro da nossa didática é o aluno. Então, eu não vou trazer para a sala de aula o que eu penso, e falar pro aluno “você tem que pensar assim”. O que eu vou fazer é pegar o pensamento do aluno e ajudar aquele aluno a levar aquele pensamento dele de uma forma muito crítica. Por exemplo, um exemplo muito prático, num dos textos que eu estudei durante a minha pesquisa, eu vi que o aluno se recusou a fazer uma atividade porque atividade “era muito gay”. “Eu não vou fazer isso daqui, porque isso aqui é muito gay”, e aí o professor virou e, “mas por que você está me falando isso?” “Ah, porque tem que fazer isso…”, e ele começou a desconstruir essa fala do aluno em diálogos,  sem ir pra cima, sem brigar sem nada… 

GF: Sem ser uma forma violenta. 

IC: Exatamente. Muito pelo contrário, né. Levar aquela fala, através de perguntas, através de questionamentos, para aquele aluno, para que ele visse no final o quanto aquele discurso feria e era violento contra pessoas que eram homossexuais. Então, não é uma questão de eu chegar na sala de aula e falar o que eu acho. Se fosse assim, todos os meus alunos seriam palmeirenses, né, porque taí o meu time do coração. Não é o caso, infelizmente, é uma coisa que eu não consegui fazer durante as minhas aulas. Mas o que a gente consegue fazer é desconstruir discurso, desconstruir pensamento, porque é muito comum, principalmente na escola regular, que os alunos reproduzam coisas que eles ouvem em casa, na sociedade, na TV, e a gente, como professor, usando esse diálogo: “mas você já pensou se eu sou gay e eu ouço isso que tu tá falando, você acha que eu ia me sentir confortável?”. E fazer essa desconstrução do discurso, e elevar esse pensamento, que é de reproduzir o que eu ouço para “deixa eu pensar no que eu estou ouvindo e ver o que que eu posso reproduzir e o que eu preciso combater”. 

GF: Interessante o que você fala, Ilá, porque você não está necessariamente falando pro aluno “não pense do jeito x, pense do jeito y”. Você simplesmente retornando o, “por que que você pensa da forma x?”. E é daquilo que a gente é imposto, muitas questões, a gente ouve muitas questões que a gente simplesmente aceita. Abraça com o coração, “porque meu pai falou”, e aí, daqui pra frente, essa é a realidade pro resto da minha vida. Dentro de casa, talvez essa parte da dinâmica, de se trazer uma pergunta, e não uma proposta à forma de pensar, talvez não exista. Então é muito interessante ver esse papel, e esse mecanismo tão importante, e eu acho que até seguro. Não é um mecanismo que colocaria em xeque qualquer crença, qualquer questão, talvez, do aluno, mas simplesmente você trazer uma visão, aonde ele vai discutir com ele mesmo essas ações da sociedade que ele vê a sua volta, né. 

IC: E é esse o desenvolvimento do pensamento crítico na sala de aula, né. Quando a gente questiona o que é normal, “por que que essa família é normal, é considerada normal?”, “por que que esses trabalhos, dessa lista de profissões que a gente viu aqui, nessa unidade sobre profissões, por que são esses os trabalhos que estão aqui, por que você não tem, por exemplo, a faxineira, que a gente encontra todo dia na escola? Por que que ela não tá aqui?”. O cobrador de ônibus, o motorista de ônibus, porque eles não estão aqui? Por que tem advogado, astronauta, rockstar ou coisas assim? E aí o aluno é levado a essas reflexões. Então é realmente uma construção de uma forma em diálogo do pensamento crítico e da representatividade em sala de aula. Eu acho que essas são as principais bases, aí, dessa representatividade, do porquê a gente tem que trabalhar com ela. 

GF: E Ilá, você comentou sobre a necessidade do professor, de uma maneira ali, frequente, como um certo hábito, trazer esses exemplos, não como um caso isolado do tipo “olha, a família tradicional que a gente conhecia, o branco hétero europeizado”… existem outros desenhos que também encaixam no desenho de família, e a gente tem que entender que todas essas formas, essas demonstrações, são normais, e naturais, e a gente não pode enxergar isso apenas como um exercício dentro de sala de aula, que vai acontecer uma vez ao ano, e assim por diante. Se a gente está conversando com os professores agora, que têm ainda um acesso a, quem sabe, um livro didático ou uma instituição que ainda incentiva muito essa visão mais tradicional, e quer começar a furar um pouco essa bolha, trazer um pouco mais do que a gente conversou dentro do episódio para dentro da sala de aula. Além desses exemplos, quais tipos de atividade você recomendaria que o professor poderia executar, e aí falando realmente ali do ensino regular, pra que ele possa aproximar os alunos dessa discussão, e começar a fazer essas perguntas, pra que os alunos criem uma reflexão pra desenvolvimento de pensamento crítico? 

IC: Tem várias formas que a gente pode fazer, né. Ah, eu acho que, como eu já disse antes né, trazer imagens, trazer narrativas diversas, autênticas, do mundo real pra sala de aula, narrativas e imagens que representem esses grupos, é um bom começo. Adaptar o livro que a gente tem. Porque também, no mundo ideal, nós professores criaríamos o nosso próprio material didático, porém a gente sabe que, dando 40 horas de aula por semana, que requer 40 horas de preparo e correção, a gente não tem esse tempo, e nem essa saúde. E nem tem que ter, porque né? A gente tem que ter uma vida social, e relaxar um pouco também. Então, eu realmente acho que adaptar o material que a gente tem é uma forma. Ou a gente traz, por exemplo, fotos diferentes, artigos autênticos de jornal, de… e aí a gente vai até além do ensino de língua inglesa, a gente pode pensar inclusive em ensino de língua portuguesa, ou de química, de física… trazer coisas autênticas da sociedade, que trazem esses grupos que não estão sendo representados pra sala de aula. E a outra é a gente realmente começar a tentar treinar esse questionamento, o questionamento do “ok, essa é nossa página que a gente vai trabalhar. Pensa na tua jornada, da escola pra casa, de casa pra escola, ou pro mercado… quantas pessoas iguais a essas que estão aqui representadas você encontra? Quem você encontra que não está aqui? Por que vocês acham que elas não estão aqui?”. Tentar realmente construir essa visão crítica do aluno, que não requer preparação de material nenhuma, requer realmente a gente questionar o que está sendo dado como normal, e aceitar todas as respostas dos alunos, desconstruindo os discursos que realmente trazem um conteúdo um pouco mais agressivo, principalmente pra grupo minoritarizado, e a gente consegue trazer essa representatividade, essa formação de pensamento crítico, sem precisar ter um grande trabalho fora da sala de aula. 

GF: E parece que um dos principais trabalhos é incentivar o diálogo, incentivar a pergunta, e não tornar a aula um monólogo, mas sim permitir a retórica, permitir com que o aluno mesmo faça uma reflexão, até em voz alta, e ele consiga entender realmente o que ele tá absorvendo naquele momento, se faz sentido, ou por que que ele tá enxergando aquilo de certa forma, ou se existe alguma outra forma, tão natural quanto, só que não tá apresentada na frente dele. E, realmente, é uma arma muito poderosa, e principalmente de ser incentivada e colocada na frente do aluno desde cedo, pra não ter que esperar, igual o apresentador desse programa, chegar numa universidade pública com seus 18 anos na cara, barbado, para aí sim começar a entender que o mundo é muito maior que o colégio franciscano no qual ele estudou por 15 anos. Realmente é um mecanismo, é uma ferramenta necessária, que eu infelizmente não tive cedo na minha educação, tive depois essa oportunidade, e eu acho que eu espero, não só eu, mas acho que você também, né Ilá, que os professores que tão ouvindo a gente consigam colocar isso em prática, incentivar essa construção desse pensamento crítico nos alunos. 

IC: Com certeza. E eu acho que é muito importante a gente reforçar o porquê isso é necessário. Por que que a gente tem, enquanto o professor e educador, essa obrigação de moral, de desenvolver esse pensamento crítico através do diálogo? Porque este aluno vai sair da sala de aula com esse pensamento crítico, com essa visão, com essa atitude de conseguir identificar a injustiça e saber as formas de lidar com essa injustiça de forma desconstruí-la, porque ele aprendeu, através do diálogo, através de reflexão própria. E é assim que a gente espera, né, que a gente pensa que ele vai agir na sociedade como um todo. 

GF: Ilá, eu acho que esse material que a gente construiu, que a gente está conversando aqui, é um ótimo ponto de entrada. Um ponto de partida, igual a minha primeira pergunta. Mas agora, o professor tá curioso, e ele quer recomendações adicionais, ele quer fazer uma extensão desse episódio, e ele gostaria de ouvir algumas recomendações, seja de material, de sites, de atividades, ou do como que ele pode se envolver, aprender um pouco mais pra poder repassar isso para dentro da sala de aula. Então, pra gente encerrar esse episódio, queria que você trouxesse algumas recomendações, e eu já quero tranquilizar o ouvinte: vão estar todas na descrição do episódio, então não precisa pegar papel e caneta, não precisa ficar correndo, abrir o teu grupo no WhatsApp para você escrever. Vai estar tudo na descrição do episódio. Então o que a gente pode recomendar pra fechar esse episódio, Ilá? 

IC: Eu comecei o episódio indo na fonte da definição, né. Você me perguntou o que era representatividade, e eu fui no dicionário pra gente começar a conversar. Então, se a gente quer começar, a gente tem que ir na fonte. Quem começou a educação crítica e a formação do pensamento crítico na educação realmente foi Paulo Freire, e os livros do Paulo Freire são muito tranquilos de se conseguir, muito estão em arquivo aberto na internet, então são livros que eu recomendo. Todos eles, claro, mas em especial eu diria que seria a Pedagogia do oprimido, e o Pedagogia da autonomia. Tem um livro, também, que é um livro mais antigo dele, Educação como prática de liberdade, que não é muito fácil de se encontrar, mas é possível. São livros fáceis de se encontrar em sebos, também, e em bibliotecas públicas, especialmente de universidades. Além disso, mas esse realmente é a parte mais teórica. Se a gente precisa de coisa mais prática, tem alguns sites na internet que trazem materiais prontos, que podem ser comprados ou baixados, e usados como substituição das unidades. Eu tenho orgulho de falar do meu próprio material, que eu ajudo a desenvolver, que é o Raise Up, que a gente tem no https://raiseupforelt.com, mas tem outros recursos também, que é o fourc.ca, que é um site de um colega, professor nosso, que também tem algum material didático com foco em LGBT, na comunidade LGBT. E tem também o Ideal ELT, que é um site onde eles disponibilizam esse material adaptado, não só pra representatividade de grupos minoritarizados, mas ele também é desenhado de uma forma que ele é inclusivo pra pessoas que tem dislexia, pra pessoas que tem alguma outra questão de aprendizado, mesmo. Então são essas as minhas recomendações. E as associações: BRAZ-TESOL,  a IATEFL, o TESOL, que são associações de professores, brasileiras e mundiais, que trazem todas as discussões, que trazem recursos, que trazem workshops gratuitos para o professor que quer investir na própria formação. 

[Música] 

GF: Ilá, foram recomendações incríveis! Obrigado por compartilhar todas essas dicas com os ouvintes. E eu queria agradecer a tua participação, a tua segunda participação aqui no Evolution Teacher Talks, então seja super bem-vinda, e eu tô ansioso para nossa terceira. 

IC: Eu que agradeço mais uma vez a confiança, eu que agradeço ao convite, e eu sou arroz de festa, me chamou eu digo sim (risos), eu não me digo não. Então, se eu tiver a oportunidade, é um tema que eu adoro, e tenho muitos colegas que falam disso também, o nosso primeiro episódio foi com duas colegas maravilhosas, também. Então eu estou sempre pronta pra participar, se vocês precisarem. 

GF: Se você gostou desse episódio, segue a gente lá no Spotify, Apple Podcasts ou na sua plataforma de streaming preferida. Afinal de contas, o Evolution Teacher Talks está disponível em todas elas, e temos episódios novos a cada duas semanas. Eu quero te convidar também pra seguir a gente lá no Instagram, através do @ftdeducacao, e conhecer os conteúdos extras no site conteudoaberto.ftd.com.br. Ah, e não esquece de compartilhar com os seus colegas de trabalho, família e amigos, pra conhecerem esse projeto incrível da FTD Educação. Eu te encontro no próximo episódio, e até a próxima pessoal! 

[Música] 
 

Ficha técnica   
Apresentação: Gabriel Falk  
Produção: Nathália Xavier Thomaz  
Roteiro: Gabriel Falk  
Pauta: Nathalia Xavier Thomaz, Isabel Lacombe  
Convidada: Ilá Coimbra
Realização: FTD Educação  
Edição: Maremoto 

Você também pode acompanhar pelas plataformas Deezer, Apple Podcast e Google Podcasts.

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