Agência e a aprendizagem de línguas.

É de extrema importância que a sala de aula ofereça ao aluno ferramentas que o permitam pensar criticamente e agir de forma cidadã na sociedade em que ele vive. Mas como estimular o protagonismo? E mais: Como fazer deste aluno um agente altamente capaz de transformar a realidade em sua volta? É aí que aparece o conceito de “Agência”, tão novo, mas já importante no debate de novos modelos de ensino-aprendizagem. 

Quem conversou com a gente sobre esse assunto foi a linguista, professora e pesquisadora Fernanda Liberali. O bate-papo está disponível nos principais tocadores de podcasts e aqui você confere a audiodescrição completa de tudo o que rolou. 

Bom podcast! 

Transcrição Evolution Teacher Talks Episódio 6 – 3ª Temporada

FL – Fernanda Liberali 

GF – Gabriel Falk  

(intervenções simultâneas) – falas ao mesmo tempo  

[correções] – correções de conteúdo  

[inserções] – palavras ou trechos faltantes  

[Música] – pausa musical  


[Música] 

Gabriel Falk: Oi ouvintes! Eu sou o Gabriel Falk e sejam bem-vindos a mais um episódio do Evolution Teacher Talks, um podcast da StandFor, o selo de língua inglesa da FTD Educação. Todo episódio, eu convido professores e profissionais do ensino e aprendizagem de idiomas, e hoje a gente vai conversar com a Fernanda Liberali sobre um conceito super importante, chamado de “agência”. Cada vez mais ele tem se tornado relevante no processo de ensino e aprendizagem de uma língua adicional, onde o professor não apenas busca garantir que o aluno está aprendendo a parte gramatical de um novo idioma, mas ao mesmo tempo o incentiva a pensar de maneira crítica sobre as questões culturais e sociais atreladas a esse mesmo idioma. Aprender inglês ultrapassa a fronteira da conjugação verbal, gramática e redação. Uma nova língua tem o poder de aproximar as pessoas a diferentes realidades, e mitigar o preconceito que só prejudica o nosso desenvolvimento como sociedade. O desenvolvimento da agência é um passo importante no caminho pra construção de uma sociedade mais justa, e quem vai conversar comigo sobre isso é a Fernanda. Então eu vou apresentá-la pra vocês, e logo a gente começa o nosso bate-papo. A Fernanda Liberali é formadora de formadores, pesquisadora e professora da PUC-SP. Possui graduação em Letras pela UFRJ, mestrado e doutorado em linguística aplicada em estudos da linguagem pela PUC-SP, pós-doutorado pela Universidade de Helsinki, pela Universidade Livre de Berlim e pela Rutgers University. É membro do Eastside Institute Associates e do Global Network da Universidade de Leeds, coordenadora geral dos projetos nacionais de extensão e pesquisa Programa Digitmed, o Projeto Brincadas, e co-fundadora do Global Play Brigade. Fer, seja super bem-vinda ao Evolution Teacher Talks. Muito obrigado por topar o nosso convite! 

Fernanda Liberali: Muito obrigada, Gabriel. Tô muito feliz de estar aqui com vocês hoje pra esse bate-papo, tenho certeza que a gente vai contribuir muito com as discussões sobre agência. E eu queria começar, Gabriel, se você me permitir, me apresentando. Eu sou a Fernanda Liberali, eu sou uma mulher cis, branca, de ancestralidade indígena, africana e europeia, e tô muito feliz de estar hoje aqui com vocês.  

GF: Fer, eu tô mais feliz em te receber, e eu não fiz essa apresentação também, e eu quero fazer junto contigo. Eu sou o Gabriel Falk, um homem cis branco de ancestralidade europeia, eu tô usando na gravação uma camiseta preta, um óculos de armação grossa, preta também, e o meu fundo é totalmente branco.  

FL: Ah, então eu vou te dizer que o meu fundo é de uma estante cheia de livros e cheia de bonequinhos, que representam esses livros. E eu, tô de blusa azul e branca, com um colar de pérolas e brinco de pérolas também. 

GF: E Fer, pra gente começar o nosso bate-papo com o pé direito: na introdução, eu mencionei esse conceito de agência, que pra mim é muito novo, e eu tentei resumir em um tweet pro pessoal. Eu gostaria que a gente tentasse começar o episódio fazendo uma definição aqui, bem clara pro pessoal. Eu queria começar o episódio falando como o termo “agência” pode ser utilizado, pode ser usado no contexto da educação.  

FL: Ai, eu acho muito legal. Eu acho que seu tweet foi ótimo, e acho que a gente pode agora só expandir, né.  

GF: Vamos lá, vamos criar uma thread então, vamos falar sobre isso.  

FL: Vamos criar. Bom, eu acho que esse é um conceito muito importante e muito pertinente para esse momento histórico que a gente tá vivendo, tanto como sociedade como também como educação. Quando a gente pensa na nossa sociedade atual, e olha pras guerras que estão acontecendo agora, e principalmente essa questão toda que está acontecendo na Ucrânia, quando a gente olha pros diferentes posicionamentos que acontecem na sociedade em relação a vacina, não vacina, uso de máscara, não uso de máscara… como é que a gente se coloca, na vida, em relação a essas coisas? Como é que a gente age no mundo em relação a essas coisas? Nisso tá o conceito de agência. O primeiro aspecto ligado à palavra agência é a gente olhar pras pessoas, em oposição àquela visão de passividade. Então a gente falava antigamente, por exemplo, um aluno passivo, uma pessoa passiva, que aceita, que se adapta. Ou pior, que reproduz o que acontece na sociedade, tanto em termo de ideias como modo de agir no mundo. Que tipo de participação ele terá, que tipo de responsabilidade ele vai assumir. Então, quando a gente fala que uma pessoa é agente, a gente tá dizendo que aquilo que ela tá fazendo, ela assume responsabilidade. O Bakhtin fala uma palavra que em russo poderia ser dita como algo como “responsividade + responsabilidade”, então ele chama de responsibilidade. E essa ideia de responsibilidade é isso. É que eu respondo ao que acontece no mundo, e ao mesmo tempo assumo responsabilidade sobre aquilo que eu faço. Então o agente é esse carinha que assume responsabilidade sobre as respostas que ele dá ao mundo e ao viver. 

GF: E Fer, na tua opinião, como que é todo esse processo do agente se tornar responsável por tudo que ele fala, pelo que ele faz, ele ter um pensamento crítico, e não apenas ser um receptor de nova informação. Como que isso, na tua visão, caminha lado a lado, de forma paralela com a evolução e desenvolvimento educacional do aluno, e dentro das salas de aula? 

FL: Então, normalmente, as pessoas pensam que você vai pra escola pra aprender um conteúdo, pra fazer uma prova, pra passar num concurso, pra se tornar o bonzão, sei lá. E o que a gente diz é o seguinte: pra que serve a escola, né, no final das contas a grande pergunta é essa. E daí assim, eu imagino que a escola seja o espaço pra gente construir possibilidades de participação plena na sociedade. Em outras palavras, o espaço pra construção de agência plena. Você não tem isso, e nem eu tenho isso. A gente constrói isso constantemente. Você acabou de falar na abertura, “ah eu também vou fazer a minha descrição”. Veja, é você construindo recursos pra você agir na sociedade de uma nova forma, que vai além, que talvez antes desse momento que a gente tá tendo aqui você nem conhecesse. Não é que você não fazia porque não queria, não, você talvez nem conhecesse, então essa ideia é o que a gente pensa que educação deveria ser: o local, o espaço constante, contínuo, eterno na nossa vida, no qual a gente vai entrar em contato com muitos recursos pra ser no mundo. Recursos vários, tanto em termo de conteúdo, como em modos de expressão, como em sentimentos. E ao fazer isso, a gente amplia a nossa potência agentiva de participação em diferentes contextos, e isso é muito potente, porque daí você não vai pra escola pra aprender conteúdo. Você vai pra escola pra se tornar cada vez mais agente em diferentes contextos. Então, os conteúdos são importantes, mas eles são em função do seu ser no mundo. 

GF: Até tua fala, impressionante como enquanto você respondia eu pensava “nossa, isso conversa tanto com empatia”, que é uma palavra que a gente fala tanto, né. E normalmente a empatia acaba surgindo da gente conhecer um pouco melhor as realidades e ter uma capacidade de absorção e até posicionamento em situações que hoje… na verdade, nunca foram aceitáveis, nunca deveriam ter sido aceitáveis, hoje a gente realmente assumindo um papel de ator e de agente. Estudando pra pauta, Fer, eu me deparei com um termo interessante, que é “protagonismo”. E eu gostaria de saber, na tua percepção, por tudo que você já estudou, esse conceito de agência, ele tem uma similaridade com o conceito de protagonismo, ou eles são conceitos apartados? Como que a gente pode fazer essas diferenciações? 

FL: Bom, vamos começar falando assim: bom, eu sou linguista, né, como você me apresentou. Então o linguista, ele cuida da questão das escolhas lexicais que se faz. Então escolher protagonismo, ou escolher agência, não é uma escolha sem que você tenha por trás toda uma base, não só conceitual, mas também político-ideológica. E quando a gente fala em protagonismo… vamos pensar na literatura, quem é o protagonista, né? Protagonista… 

GF: Personagem principal, normalmente, né. É o mocinho, é o bonzinho. 

FL: Exato! E quando você tem um protagonista, o que que você tem que ter também? 

GF: Você tem um vilão! 

FL: Exato. 

GF: Alguém que ele tem que combater.  

FL: Exato, o antagonista! Então, um protagonista tem esse primeiro ponto, que é ter aquele que é o grandioso, o beleza, o que tudo tem de bom, e o outro que vai ser opor a ele. E, além disso, ele tem uma outra, os coadjuvantes. Então, veja, você coloca um sujeito numa posição de destaque em oposição a um outro, e com uma série de outros que estão em um degrau abaixo dele. Essa perspectiva se alinha a uma visão que numa sociedade que pressupõe que o sujeito se adapte àquilo que é demandado dele, que ele responda da forma adequada àquilo que a sociedade já coloca como pressuposto, que ele, principalmente, seja resiliente frente às dificuldades. Então esse é o protagonista. O agente não. O agente não é resiliente, não é adaptativo, e principalmente, ele não é acima dos outros, e nem é contra os outros. Ele é com o outro. Então, somos todos coagentes na construção resistente, e no sentido de resistência como usa o Spinoza: não a resistência de ficar batendo, mas a resistência que pressupõe você ter uma potência de existir dentro de você, que quando se une à potência de existir do outro, é ampliada. Eu amplio a sua, você amplia a minha, e nós, no todo, ampliamos de todos, então somos agentes potentes, no sentido que temos uma energia de nos mantermos em existência, que se potencializa nos contatos. Então, o agente é esse sujeito cheio de potência, que junto com outros agentes, constrói uma sociedade maior, mais ampla, mais equânime, mais justa, que vai em busca disso. E o protagonista é aquele que, muitas vezes, se senta, culpado. Senta mesmo, culpado, frente a um computador, querendo pensar “o que que eu faço frente a esse mundo perdido?”, desesperado, e se sente responsável sozinho. Esse momento de pandemia mostrou pra gente a dor que as pessoas estão sentindo. Até pra voltar a gente tem feito trabalhos com o mundo inteiro com isso. Com jovens do mundo inteiro, e a gente percebe como eles têm tido dificuldade, porque o isolamento reforçou a ideia de que você tem que ser um protagonista, e também, muitas vezes, tirou da gente aquela percepção que o dia a dia comum, no espaço comum, mostra pra gente, que a gente não tá sozinho no mundo. Então, assim, é muito necessário que a gente tenha essa distinção muito clara. Embora, e aí agora eu tenho que fazer essa colocação, muitas pessoas usem a palavra protagonismo com a acepção que a gente dá praquela de agência. Então, não é porque a pessoa usou a palavra protagonista, que ela tá querendo dizer isso que eu falei sobre protagonismo.  

GF: Sim, que ela necessariamente acredita que em tudo há uma visão hierárquica, e assim por diante. 

FL: Não. Mas significa que ela está num conjunto. Pode ser que sim, pode ser que não. A questão é que a palavra, ela tem um ranço que ela carrega, e que às vezes as pessoas nem se dão conta. 

GF: Fernanda, ficou muito clara a diferença de protagonismo e de agência, mas agora eu tô curioso pra saber: existe mais de um tipo de agência?  

FL: Olha, tem um monte de gente no mundo afora, principalmente na linha, na vertente socio-histórico-cultural vygotskiana, que vem trabalhando com o conceito de agência. E daí, as pessoas procuram fazer o quê? Elas procuram entender, de acordo com aquilo que o sujeito consegue realizar, e aquilo que ele colocou o foco, que tipos de agência eles estão exercendo. Para você ter uma ideia, eu tenho uma aluna que tá fazendo uma pesquisa muito interessante pra entender agência de crianças de pré-escola durante a pandemia nas aulas remotas. Então ela quer ver que tipo de agência essas crianças têm. Numa que ela trabalha, ela ainda tá querendo nomear, mas ela deu um nome que eu gosto muito, que é “agência capturada”. A Mônica vem trabalhando com essa ideia, olhando criança que estão em escolas de educação bilíngue, em formação no segmento de educação infantil, e vendo o modo de participação dessas crianças, e tentando ver que tipo de agências elas estão assumindo. Então ela viu uma, que na pandemia ficou muito marcada no ensino remoto, que é a agência capturada, pelo adulto. Que é aquele momento em que a criança tá tentando participar, ou tá meio envergonhada, e o pai, que tá do lado, fazendo a aula junto, toma a vez da criança e responde, fala por ela, e fica mandando falar… então isso é um tipo de agência, só que é a agência capturada. É quase uma anti-agência, ou a agência do pai sobre a criança, ou qualquer coisa desse tipo. Essa é a parte ruim da história. Agora, a gente tem outros tipos de agência que são muito legais. Uma delas é de uma autora inglesa chamada Anne Edwards, que se chama agencia relacional, que é a condição que as pessoas têm de perceber o potencial umas das outras e, em trabalhando em colaboração, elas usarem seu potencial pra contribuir pro outro e saberem lançar mão, e também incentivar o potencial do outro, pra que ele contribua pra atividade. Então, a ideia da agência relacional é que uma pessoa aja pra turbinar a capacidade de agir da outra, e isso é agência relacional. A gente tem outros. Agência colaborativa, por exemplo, que a Maria Cecília Magalhães e a Ninin têm trabalhado nos últimos anos, que é essa coisa: como é que você constrói como ser no mundo, agente social, condições de criticamente, junto com o outro, colaborar? Então é uma forma de agir que pressupõe que um e outro se envolvam, pra que um e outro possam, mutuamente, capturar um do outro o que eles têm também de mais potente, mas incentivando, não só o que você tem de melhor e o que eu tenho de melhor, mas construindo a partir do que eu tenho, aquilo que eu não tenho, para que eu possa vir a contribuir pro todo.  

GF: E parece que são ganhos mútuos, né. Parece ser uma forma muito positiva de você incentivar os ganhos mútuos, e de você poder até mesmo dar um pouco de palco pra fortaleza daquela pessoa, daquele agente, em ele poder demonstrar no que ele é bom, o que ele é capaz, onde ele realmente se especializou, e como isso pode ter um impacto muito positivo na vida de uma outra pessoa. Isso é incrível! 

FL: Só que a colaborativa-crítica ainda vai além disso, porque ela coloca assim, você vai ter que também perceber e ter condições de fazer com que o outro se perceba nas suas fragilidades, pra tentar cada vez mais superá-las, sabendo que tem você como apoio. Isso é lindo demais! Isso pressupõe, essa vida de colaboração e de respeito, de justiça no sentido mais amplo que a gente pode pensar. A outra coisa que a gente tem, outra forma de pensar agência, é a agência transformativa, ou transformadora, como usam tanto o Yrjö Engeström, que foi meu orientador na Finlândia, como a Anna Stetsenko, que trabalha na Universidade da Cidade de Nova York, atuam muito fortemente com esse conceito de transformative agency, ou agência transformadora, como a gente vem traduzindo. Essa ideia é muito importante, primeiro porque, na linha do que fala o Engeström, a gente tem a ideia de que cada pessoa vai assumir autoridade e autoria pra transformar as condições de injustiça, as condições que estão acontecendo pra além daquilo que se considera o que é adequado pra sociedade. E a Anna Stetsenko diz que é papel da escola ser transformadora. É papel da escola da escola formar um sujeito que seja, quer dizer, transformador ativista, transformador radical. Porque transformador, todos somos, portanto todos somos agentes de alguma forma. Agora, que tipo de transformação a gente tá ajudando a construir? E isso é que eu acho que é central, porque, a gente num mundo tão multicultural, a gente fica se perguntando, o que que é que essa sociedade precisa, né.  

GF: Fer, deixa eu aproveitar e puxar um gancho, que você falou do multicultural… eu queria te perguntar, qual que é a importância do multiculturalismo pro ensino e aprendizagem de línguas? 

FL: Eu acho que você pegou um ponto muito importante, porque eu tô falando de agência, agência, mas e daí? O que que isso tem a ver com o cara que tá aprendendo inglês, que tá aprendendo francês, tá aprendendo o que quer que seja, né, a língua que for. Bom, primeira questão é o seguinte: às vezes, as pessoas acham que quando a gente fala “multicultural” é porque a gente vai trabalhar com Halloween, vai trabalhar com… sei lá, essas coisas que são ditas quase como que peculiaridades de um determinado grupo. Não é disso que a gente tá falando. Um agente multicultural é uma pessoa que aprende a lidar com um mundo super diverso. O Vertovec, que é um autor que trabalha com a ideia de que o mundo não é só diverso, ele é super diverso, porque uma única situação congrega um conjunto tão diferente de possibilidades pra cada pessoa… por exemplo, quando a gente se apresentou e eu disse que eu sou uma pessoa cis, a gente tem tantas possibilidades pra se definir. Outra coisa, eu falei que tenho ancestralidade indígena, europeia e africana. Veja bem, olha que mistura que a gente tem só em mim, a diversidade. Então, quantos aspectos marcam quem eu sou? Não existe uma cultura fixa, o que existe é movimento, né. O que existe é movimento, movimento das pessoas por múltiplas possibilidades culturais. E quando a gente tá aprendendo outras línguas, quando a gente tá aprendendo a entrar em contato com outras pessoas, e aí a gente pode estar falando de uma pessoa que vem de outro país, ou de uma pessoa que vem de outro bairro, ou que vem de outra área, ou que vem de outro contexto mínimo, ou de outra idade, a gente tá quebrando com as nossas limitações de um contexto que às vezes a gente acha que é puro, “ah eu sou brasileiro, então eu gosto de samba, eu gosto disso…”. Não, o que é ser brasileiro? Tem muitas possibilidades. E quando a gente aprende uma língua, o pessoal fala “não, tô aprendendo inglês americano” que inglês americano, minha gente? Vocês tão aprendendo inglês do mundo! O mundo fala inglês. Eu falo muito mais inglês com gente que nem é de países que originalmente tem lá como a língua do país. Então a gente tá aprendendo línguas pra entrar em contato com o outro, a gente tá aprendendo gestos multimodalmente, eu acho que isso é muito importante, viu Gabriel, essa ideia da multimodalidade quando a gente tá aprendendo uma língua. É o gesto, é a expressão facial, é o movimento, a entonação de voz, eu posso falar good?, good!, good. Você entendeu três coisas diferentes com a mesma palavra, good. Eu só sei falar good, e eu posso conversar com você com a palavra good, porque eu vou buscar conexão com você a partir da minha entonação dessa palavra. 

GF: E Fernanda, é muito interessante ver como que o próprio ambiente da sala de aula, junto com o professor, pode incentivar esse tipo de troca e incentivar esse tipo de conexão, de comunicação e mentalidade, do quão importante ela é. E eu queria te perguntar se você consegue dar exemplos de como que um professor pode construir com esse processo aí de construção de agência, principalmente considerando que a gente acabou de conversar sobre a multiculturalidade do processo de ensino que a gente tem, não só dentro de sala de aula mas enfim, comunicação com outras pessoas.  

FL: Ah, eu acho que isso é muito importante, porque às vezes o professor tá tão preocupado, como você falou lá no início, né, que ensinar uma língua é ensinar gramática, ensinar aspectos fonológicos, que é sim importante, só que não só. Então, quando a gente olha pra isso, a gente começa a pensar assim: bom, como é que eu organizo didaticamente o meu conteúdo? Como é que eu organizo pedagogicamente a minha aula, né. E aí a gente vai pensar, em primeiro lugar, assim, qual o ponto de partida? Já dizia o Paulo Freire, é a vida. É a vida que se vive. Então a gente vai atrás das situações concretas do dia a dia. Quais são os contextos em que os seus alunos vão estar envolvidos? São esses contextos que vão dar pra gente o parâmetro do que precisa ser ensinado. Então vai dizer pra gente o que que você precisa saber sobre, que linguagem você precisa falar, então que textos você produz, que gêneros você vai escrever, ou vai falar. Por exemplo, tô fazendo essa conversa com você, o que que eu preciso pra poder participar disso? Isso vai guiar a organização do conteúdo e as múltiplas culturas que eu vou precisar trazer. Então eu vou primeiro pensar, bom, então eu só vou pegar do professor de língua, o que que tem de conteúdo da linguagem? Ah, vai me fazer pergunta, eu vou fazer resposta, vou fazer uma argumentação, vou fazer uma exposição… não, não é suficiente eu saber dos aspectos de língua. Eu preciso entender por exemplo como estar aqui no StreamYard, como eu vou participar, da minha forma de falar, como é que eu vou usar a voz pra que eu capture o meu público? E isso não tá só na língua, isso já tá em outros aspectos da comunicação, mas não a língua. Mas não só isso, eu preciso também entender o que é estar usando, aqui, uma conexão, usando a mídia, fazendo, e eu preciso ter saberes múltiplos sobre como me relacionar com as pessoas que vão estar do outro lado. Então, só pra dar um exemplo de uma coisa bem boba: se eu tivesse falando de assistir um filme, eu precisaria pensar em uma série de outras coisas. Se eu tiver falando sobre participar de uma feira cultural, visitar um museu, tantas outras. Ir à praia, eu preciso saber nadar, não adianta só eu saber falar pra comprar coisa na praia, eu preciso também, eu preciso saber sobre a questão ecológica, como é que tá essa praia, que praia é essa, como é que tá o sol, o que que é isso, camada de ozônio, o que eu uso, passo ou não passo? Todo esse conjunto é o que guia a minha prática pedagógica. Porque daí eu parto disso, que são as necessidades das pessoas na vida, e vou pensar, como é que história, geografia, ciências, matemática, línguas outras, podem contribuir pra que eu seja uma pessoa no mundo com mais condições de agir nessa sociedade? E aí eu vou estruturar o currículo a partir disso.  

GF: Pela tua fala, parece que a prática do professor precisa vir do contexto. Sem um contexto, a prática não pode existir, senão vai ser uma prática que não vai ser efetiva. Você precisa ter um contexto. 

FL: O contexto é o ponto de partida e de chegada, viu? A gente fala, com base no Paulo Freire, que a gente pode pensar na construção agentiva a partir de: primeiro, permitir que o aluno faça uma imersão na realidade, então eu trago situações da vida real, do contexto, pra que esse aluno vivencie, brinque com ela, participe. Eu vou fazer uma emersão, como diz o Freire, que é entender o significado daquilo, entender historicamente diferentes saberes que podem contribuir pra eu entender aquela realidade, pra eu viver aquela realidade. E aí uma inserção, porque veja, eu vou ter vivido o duplo movimento, que diz o Vygostky, de trabalhar os saberes cotidianos da vida, os saberes que estão escolarizados, vou juntar esses dois e com a força desses saberes escolarizados e não escolarizados eu vou me inserir na sociedade, pensando em como eu vou agir, como eu vou sentir, coisas que eu posso experimentar, como é que eu vou ser em diferentes contextos. Por isso a gente usa muito a brincadeira, o teatro, como forma de recuperar pras pessoas, pros alunos principalmente, situações da vida, tanto pra que ele perceba o que ele não sabe ainda fazer, e aí entenda a importância dos saberes da escola, como pra que ele possa brincar de usar os saberes da escola em situações quase reais, que recuperam a vida e permitem ir além. 

GF: E Fer, se a gente considerar a tecnologia como uma ferramenta, você acredita que todos os avanços tecnológicos, as plataformas que hoje a gente tem à disposição, elas podem contribuir pro desenvolvimento do conceito de agência?  

FL: Com certeza. Tudo contribui pra tudo, depende de como a gente usa, na minha opinião. Então assim, com a tecnologia a gente pode fazer pesquisa com os alunos, a gente pode colocar os alunos pra interagirem com gente do mundo inteiro, pra efetivamente fazerem práticas, a gente tem feito manifestos internacionais com os alunos, sobre a questão da mulher, contra o idadismo [etarismo], e isso, porque que a gente consegue fazer isso? Porque a gente tem as tecnologias, a gente tem feito brincadeiras em que os alunos usam, por exemplo, um Padlet, que é uma plataforma muito rica, pra que os alunos possam não só ter acesso a um repositório de coisas, né, de materiais, vídeos, textos e coisas que a gente vai colocar lá, mas também pra que eles construam possibilidades. Pra te dar um exemplo concreto: nós queremos fazer um trabalho com arte, literatura e também com a questão antirracista, então nós fizemos um museu antirracista no Padlet, com várias obras, que são de quadros lindíssimos, pinturas e fotografias do mundo inteiro, que representam a questão dos negros, e que coloca questionamentos pra gente sobre o que é o papel do negro, como que ele tá sendo tratado, como é que a gente… quantas vezes, e aí eu vou até fazer uma recomendação, na Pinacoteca [em São Paulo] tem um espaço, não sei se vocês já viram, mas eles colocam na Pinacoteca “autor negro”, pra cada quadro que foi feito por um autor negro, quer dizer, isso é mostrar representatividade, então a gente brinca com isso. E um aplicativo como o Padlet permite que o aluno monte o seu museu. A gente fez um muro dos esquecidos, com os idosos, e aí a gente mostrou como durante a pandemia os idosos foram sendo tratados, maltratados, e nesse muro, que a gente queria fazer uma alusão ao muro das Lamentações, o muro dos esquecidos mesmo, as pessoas iam lá e escreviam nesse muro. Mas que muro é esse? Um muro virtual. Então assim, é um espaço muito forte, o espaço virtual, digital, tecnológico, pra gente fazer coisas.  

GF: Incentivar a interação entre as pessoas. Porque a gente falou tanto, né, de colaboração nesse meio tempo, a gente tá falando tanto dessa coparticipação nesse processo de construção da agência, que a tecnologia acaba sendo um grande aliado, uma grande ferramenta pra que isso aconteça. E Fernanda, a gente tem tanto assunto pra falar, mas olha, a gente tem um tempo muito limitado, e olha, você citou o nome de grandes autores, grandes professores e orientadores, e pensando, agora, em recomendações literárias, pro nosso ouvinte que ouviu o nosso bate-papo, se interessou, quer aprender mais. Quais dicas você poderia dar pros nossos ouvintes se aproximarem um pouco mais desse contexto de agência, e principalmente, ficar um pouco mais imersos nesse mundo tão vasto que a gente discutiu hoje? 

FL: Eu fiz uma pastinha, né, e já deixei aí, que vocês vão disponibilizar se puderem, com vários textos de vários desses autores que eu mencionei. Um deles, que eu gosto demais, que trabalha na área educacional bastante, é o Bert Vernauers, que é um autor holandês e vai discutir o conceito de agência. Depois vocês vão poder ler sobre a Anne Edwards, falando sobre agência relacional, a Cecília Magalhães e a Otília Ninin, sobre agência crítico-colaborativa, com o Engeström e a Stetsenko sobre a agência transformadora, ou transformativa, e quem quiser também olhar sobre a agência desencapsulada, que é, tirando as pessoas de dentro das suas cápsulas, né, de “esse é o aluno, esse é o professor, esse é o entrevistador, essa é a entrevistada” e aquelas coisas, como é que a gente tira as pessoas dessa cápsula? Também tem um texto sobre isso. eu também deixei, aí, algumas indicações de alunos meus, que trabalharam com o conceito de agência em escola. Tem a Susan Clemenchal, que tem um trabalho fantástico em escola de educação bilíngue, construindo agência. A Sandra Santella, que trabalhou também com agência de professores e de alunos a partir do uso dos audiovisuais e toda tecnologia, e tantos outros né, a Maria Regina… vocês vão ter acesso a essas teses que trabalham os temas.  

GF: Uhum. E Fer, até pra tranquilizar o nosso ouvinte, que tá perguntando “Gabriel, Fer, onde é que tá essa lista toda aí de textos?”, tá na descrição do podcast desse episódio que o pessoal tá ouvindo. Então, independente da plataforma de streaming que o pessoal tá consumindo esse episódio, vocês podem verificar, que vai ter um linkzinho, vocês vão poder acessar, e aí sim, realmente ter acesso a toda essa literatura que a Fer comentou. E Fer, olha, você é um poço de conhecimento, um prazer conversar contigo. Eu queria agradecer a tua participação nesse episódio aqui do Evolution Teacher Talks, e também gostaria de te dar um espaço, não só, claro, pro agradecimento, mas de como que o nosso ouvinte pode encontrar você e conhecer um pouco mais sobre o teu trabalho.  

FL: Agradeço muito também, Gabriel, a você e a toda a equipe desse programa, que permitiu que eu estivesse aqui hoje conversando sobre esse tema que me agrada tanto, que me deixa tão feliz. Dizer pra vocês que, eu sou uma pessoa que faz parte de um grupo, então aquilo que eu trago aqui não são ideias minhas, são ideias de um grupo, e esse grupo faz, como você falou na apresentação, vários projetos, dentre eles o Projeto Brincadas. O link pra tudo que a gente tem no Projeto Brincadas também vai estar aí onde o Gabriel falou. Dizer pra vocês que eu tô nas redes sociais, adoro fazer amizade, adoro combinar, e convidar vocês, quem tiver interesse em participar, em atuar nos nossos projetos, a gente faz projetos com várias áreas. Com grupo de quilombolas, com grupos LGBTQIAP+, com um pessoal que trabalha com indígenas, principalmente aqui no Jaraguá, mas em outros lugares também. A gente trabalha com escolas públicas, escolas privadas, escolas bilíngues, pra surdos, imigrantes, escolas de fronteiras… então, venha se juntar a nós, pra pensar esse país, pra pensar possibilidades de uma educação que seja mais justa pra todos, que ofereça mais possibilidades de agência, não só pros alunos, pros estudantes, mas também pra nós professores e formadores. Vai ser muito bom ter vocês com a gente em qualquer projeto. 

[Música] 

GF: Se você gostou desse episódio, segue a gente no Spotify, Apple Podcasts ou na sua plataforma de streaming preferida. Afinal, o Evolution Teacher Talks está disponível em todas elas, e a gente tem episódios novos a cada duas semanas. Eu quero te convidar também para seguir a gente lá no Instagram, através da @FTDEducacao, e conhecer os conteúdos extras no site conteudoaberto.ftd.com.br. E não esquece também de compartilhar esse episódio com colegas de trabalho, família e amigos, para conhecerem o projeto incrível da FTD Educação. Eu te encontro no próximo episódio, e até a próxima, pessoal! 

[Música] 


Ficha técnica   


Apresentação: Gabriel Falk  
Produção: Nathália Xavier Thomaz  
Roteiro: Gabriel Falk  
Pauta: Nathalia Xavier Thomaz, Isabel Lacombe  
Convidada: Fernanda Liberali
Realização: FTD Educação  
Edição: Maremoto 

Você também pode acompanhar pelas plataformas Deezer, Apple Podcast e Google Podcasts.

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