Pandemia reforça importância da escola

Disso vai resultar um novo ensino, com a velha fórmula: a escola não acaba, como previam alguns, nem o professor será substituído pelo Google. Ele assume o papel de articulador do conhecimento. A instituição escola sempre foi muito criticada por não se renovar. Seu método datava de séculos e então tinha de mudar para não morrer. Nessa corrente foram incluídos os professores, que usariam modelos arcaicos de ensino, com aulas expositivas. E esse debate se arrastou por um bom tempo. Mas chegou a pandemia, colocou os alunos em casa, que então sentiram a falta das aulas presenciais, do afeto, porque educação é afeto, segundo Cristiano Rodrigues Batista, coordenador do Colégio Madre Alix, localizado na capital paulista, que acrescenta: “a ausência completa de contato deixou isso claro. A presença aproxima”. Arthur Fonseca Filho é conhecedor do assunto escola particular. Além de dirigir o Colégio Uirapuru, em Sorocaba, interior de São Paulo, é um dos fundadores da Abepar (Associação Brasileira de Escolas Particulares). Sua opinião sobre os efeitos da pandemia nas escolas é que nunca elas foram tão valorizadas. “A sociedade não vive sem essa rotina escolar, porque é fundamental para o desenvolvimento da criança. E também o professor foi reconhecido como fundamental no processo de aprendizagem. A criança não vive sem escola, e esta, não vive sem o professor”, afirma. Cristiano Batista, que comanda 38 professores no Madre Alix, diz que muitos estudantes pedem insistentemente a volta das aulas presenciais. “Mas o que se percebe é que essa mudança obrigou o aluno a aprender a estudar sozinho, a se organizar e acompanhar as aulas online. Esse contato virtual foi o que sobrou para se lembrar de como era seu mundo antes”, destaca. Segundo Fonseca Filho, nesse período os vários métodos e experiências adotados criaram uma verdadeira geringonça. “Foi uma miscelânea, na verdade, tanto para as escolas que já tinham essa prática, embora seus cursos fossem presenciais, até escolas menores, que precisaram sair correndo para buscar uma alternativa”, desabafa. “Disso vai resultar um novo ensino, com a velha fórmula: a escola não acaba, como previam alguns, nem o professor será substituído pelo Google. Ele assume o papel de articulador do conhecimento. Outra consequência? As escolas vão ter de investir em tecnologia e na formação dos professores”, completa Fonseca. Mas que mudou, mudou. Só que não se sabe exatamente o quê, ainda.  Os alunos sentiram falta da aula presencial e os depoimentos feitos aos professores asseguram isso. Que muitos pais quase piraram, não há dúvida. A diretora pedagógica do Colégio Santa Cruz, também na capital paulista, Debora Vaz, resume com propriedade. “É legítimo e saudável que as famílias e as próprias escolas sintam falta daquilo que estava bem dividido e bem resolvido. O aluno passou a ficar o tempo todo em casa, dividindo espaço com irmãos e pais, num esquema de vida pouco experimentado até então”, disse ela na publicação oficial da escola. Esse isolamento trouxe alguns ensinamentos e tendências que as escolas vão ter de aproveitar, na opinião de Renato Laureato, diretor acadêmico do Colégio São Luís, localizado em São Paulo. “Houve a percepção do papel das metodologias ativas. O aluno passou a ser responsável pela aprendizagem, e com as novas ferramentas, temos de desenvolver outras habilidades e competências.” Instituição tradicional de São Paulo, o Colégio São Luís tem outro ganho a comemorar, numa época de pouca comemoração. “Houve maior apropriação do corpo docente, necessária em tempos de estudo remoto”, diz Renato Laureato. Houve cuidado em tratar as crianças de acordo com a faixa etária. Alunos do infantil e fundamental 2 tiveram mais rodas de conversas, encontros, enquanto que do sexto ano em diante obedeceu-se à grade. Apesar dos 2.100 alunos, a maior preocupação que se nota no São Luís é tratar os estudantes um a um. Confessional, da igreja católica, foram trabalhadas muito as questões de fé e espiritualidade durante a pandemia. Fernanda Ferreira dos Santos, professora de português do Colégio Palmares, em São Paulo, antes de falar da loucura que momentaneamente virou sua vida, gosta de lembrar que nesse período ocorreu um letramento digital. “Valeu para professores, principalmente aqueles mais velhos que achavam que estariam livres desse aprendizado, os próprios alunos, não sabiam mexer em Word, Excel, nada além do que faziam no dia a dia? Então foi muito bom”.  Mas a vida dela se transformou porque, além do Palmares, dá aula no Colégio Albert Sabin. “E aí, remotamente, cuidava de 550 alunos.” Se os alunos não veem a hora da volta da aula presencial, explica Fernanda Santos, eles aprenderam a trabalhar de forma diferente, ganharam autonomia, organização. Outra experiência que deve continuar é o plantão remoto. Antes eu ficava fazendo nada, porque os alunos tinham preguiça de permanecer depois das aulas para tirar dúvidas. “A distância hoje tenho fila porque eles me acionam remotamente.” É um conjunto de detalhes que vai formar um novo mundo escolar, explica.

Avaliação remota, o desafio

Certamente, um dos desafios de 2020 para toda a rede de educação é como fazer uma avaliação correta por conta dessa excepcionalidade. “Não adotaríamos um modelo único de avaliação”, explica Debora Vaz, do Santa Cruz. “Isso quebraria um princípio da escola que acredita nas avaliações parciais, processuais, que valoriza a ideia de que os professores das áreas e das disciplinas têm saberes muito específicos sobre avaliação que precisam ser levados em conta”, escreveu ela. O importante para Debora é ampliar a escuta, compreender as demandas dos professores, dos alunos e das famílias, agir em consequência desse aprendizado e manter-se sempre aberta às mudanças da realidade. “Estamos melhorando as nossas práticas, formulando perguntas cada vez melhores para a equipe, os alunos e os pais. Tudo isso para poder aprender sempre. A escola faz falta na vida das crianças, dos jovens e dos adolescentes. Queremos fazer dessa experiência um momento de aprendizagem”, afirmou na publicação. Kênia Virginia S. Araujo Ferreira, diretora do Colégio São Francisco Xavier, também em São Paulo, conta que nesse período houve avanços com projetos de escuta e escrita terapêutica para os colaboradores, estudantes e seus familiares. “Por meio de momentos de diálogo em um formato remoto, exercitamos uma escuta empática”, diz. A diretora pedagógica, que tem 1.100 alunos sob a sua responsabilidade, conta à Educação que recebeu por e-mail relatos dos aprendizados e dos desafios que a comunidade está vivendo. “Dessa forma, intensificamos o acompanhamento, com foco na acolhida de sentimentos diversos, sensações e percepções acerca do momento e na busca por reflexão e ressignificação de sonhos e projetos de vida, assim como trazendo alívio emocional”, conclui. O Colégio Santa Cruz publicou depoimentos importantes voltados para a comunidade interna, pais e educadores. Moises Zylbersztajn, por exemplo, é coordenador do Núcleo de Cultura Digital da tradicional instituição e acrescenta outras reflexões. “Na quarentena, os alunos consultam os colegas, a internet. Nessas circunstâncias, como produzir uma avaliação sobre o que eles aprenderam? Precisamos, talvez, de avaliações que abram caminho para que os alunos possam pensar por conta própria e apresentar reflexões originais e pessoais que naturalmente não são passíveis de plágio.” Moises acredita também que é importante pensar em modelos de avaliação menos individuais. “Como os alunos estão conectados entre si, talvez a avaliação devesse levar em conta os trabalhos mais coletivos. Como podemos aproveitar melhor esse poder do coletivo?”, indaga.

A falta do afeto

No Recife, educadores estão sendo preparados para que a impossibilidade do contato físico não traga danos aos alunos O Colégio ABA Global School, no Recife, Pernambuco, atende cerca de 670 alunos do infantil ao fundamental 2 e nesse período de isolamento estão com aulas digitais. Segundo Anarruth Corrêa, coordenadora do fundamental 1, houve desistência na educação infantil, com crianças de um ano e meio a dois anos. ”Havia duas turmas de um ano e meio, manhã e tarde. A da tarde foi fechada porque os pais foram cancelando”, revela. Sobre esse atual cenário que afeta também o psicológico dos alunos, a pedagoga Anarruth Corrêa prestou o seguinte depoimento à Educação: “A gente percebe que uma criança ou outra manifesta um pouco de cansaço pelo tempo, mas não geral. O período de aula remota se estendeu porque o isolamento social se estendeu. Sempre se cria expectativa. Mas comprometimento psicológico não fica palpável, até porque estamos muito juntos das famílias e alunos. No retorno presencial, acho que o que será mais difícil é que no Brasil e, principalmente no Nordeste, somos muito afetuosos, de abraçar e isso não vai ter. Não será possível na volta. Talvez algo seja gerado por não poder tocar no professor e aluno, mas já estamos preparando a equipe para que, por meio do olhar e do tom da voz, da forma de falar dos educadores, de fazer, eles compreendam esse momento. O que virá depois, a gente não consegue vislumbrar. No retorno teremos isso mais concreto. De alguma forma, esse isolamento afetou, sim. Crianças que não têm irmãos em casa se ressentem mais porque ficam só com adulto. As que têm irmãos ainda possuem a brincadeira. São universos diferentes. Vivemos um processo de acomodação. Tivemos de aprender muitas coisas em muito pouco tempo. Apesar da nossa escola trabalhar com tecnologia, computador, tablet, e eles já usarem um pouco essas ferramentas, não era algo constante. Tiveram de se reprogramar e se adaptaram muito rápido. Isso é um processo de autonomia. Enquanto escola, falamos muito de autonomia e, nesse momento remoto, as crianças cresceram muito: organizam suas tarefas, acessam as ferramentas. Isso crianças pequenas, que a partir dos cinco anos conseguem inserir um arquivo, por exemplo. Elas têm uma plasticidade de aprendizagem impressionante, que já sabíamos, mas só se confirmou. Construímos uma galeria virtual, fizemos um São João virtual, banda de forró com professores de música. Criamos outras possibilidades para que não haja o desinteresse. Mas há também a questão da responsabilidade do que propomos e do retorno que elas dão. Acho que houve uma mudança também para os professores, para a construção do processo pedagógico. Professor pôde colocar em prática coisas que na sala de aula às vezes não percebia. Eles passaram pelo momento remoto tão intenso, tiveram de gravar vídeos, o que não era da prática deles. Tudo isso foi de muita aprendizagem e não vão querer se libertar, vão querer trazer essa aprendizagem para o dia a dia do presencial, fará parte da rotina. Inclusão de um vídeo no tema, uma reunião com pais e alunos em plataformas virtuais. Construir outras ferramentas por meio da tecnologia. É uma aprendizagem através do olhar. Nada, nada substituirá o presencial da escola física com todo mundo brincando, as crianças entrando e resolvendo seus conflitos, que são importantes para o desenvolvimento humano. E essa aprendizagem é presencial e não online. O online agrega, mas não substitui.”

Peripécias de um pai

A rotina do professor Felipe Valente se transformou na pandemia ao reestabelecer um novo relacionamento com seu filho O professor Felipe Valente, de 38 anos, é separado e pai do Miguel, de 5 anos. O Miguel sempre estudou em tempo integral, e para ficar mais perto, Felipe alugou um apartamento ao lado da escola, com dois dormitórios. Ele sempre se esforçou para não ser o pai recreador, aquele que pega o filho a cada 15 dias para passear. “O Miguel sempre esteve muito comigo, quando tinha trabalho falava com a mãe, que ficava com ele.” Tudo ia bem, até que de repente veio a pandemia. E o mundo desse pai e filho sofreu uma reengenharia. A mãe, trabalhando na área de saúde, teve de deixar Miguel full time com o pai. ”Aí eu sofri a pressão de um pai de verdade e ele conheceu o pai de verdade.” Felipe, que ensina história no Colégio Madre Alix, em São Paulo, teve de se reinventar, estabelecer um novo relacionamento com o filho. Ele que queria ser o melhor pai do mundo. O processo de redescoberta gerou muita ansiedade. “O Miguel conheceu o pai real, não o melhor do mundo. Mas também descobriu que a alimentação que eu preparo é um ato de carinho. Ele percebeu que eu tenho de dar aula, e esse é o momento de ele brincar com o celular.” No capítulo comida, o Miguel reclamou certo dia que não estava boa. “Quando vi, tinha jogado o prato na parede. Uma loucura, mas esse é o pai real”. Felipe diz que esse sentimento de culpa, na separação, conduz a relação para algo que não é o que se vive na rotina diária familiar. Antes, o professor comentava com os amigos sobre a sua dupla jornada. Morando sozinho, tinha de cuidar da casa quando chegasse e manter a ordem para receber Miguel. E eis que o menino chegou com mala e tudo. E em algumas vezes, mesmo tendo combinado se comportar durante as aulas de Felipe, a criança aparece pedindo algo, ou pegando o brinquedo mais barulhento da sua coleção — um momento de descontração na aula. Felipe diz que muitos pais estão passando por algo semelhante, mesmo com pai e mãe juntos. Espaço exíguo, rotina destrambelhada, pressão do momento que a humanidade vive são fatores que desestabilizam. “Antes o Miguel tinha pai, mãe e escola em tempo integral. Hoje sou só eu. Esse é o drama da vida de professor: que aluno teremos quando chegar a hora da aula presencial?” Felipe traça um paralelo com sua vida. “Qual é o adolescente que vem, depois de ter sido forçado a viver com a família? Todos nós estamos nervosos, porque não sabemos como vão voltar.” Se precisou se reinventar na função de pai, Felipe vai se desdobrar para receber seus alunos. “Eles demandarão tempo e cuidados. Vamos ter de garantir uma escola acolhedora, o espaço para as interações sociais, afinal eles se sentem entediados e com saudade da escola.”
Conteúdo originalmente publicado na Revista Educação – Outubro de 2020.

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