Os saberes não curriculares

Não se pode mais responder às indagações do cotidiano multidimensional e imprevisível de maneira fragmentada ou disciplinar 

Considerado um humanista planetário, Edgar Morin é autor da epistemologia da complexidade, que surge na década de 60. Do latim, Complexus: o que é tecido junto. O pensamento complexo é um tipo de pensamento, oriundo dessa teoria, que questiona o paradigma da razão e a ciência como único modo de interpretar a realidade. Busca religar os conhecimentos dispersos e integrar cultura científica e cultura humanística. Ou seja, na complexidade “tudo se liga a tudo”. Como o próprio autor afirma no livro Ciência com consciência: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar”. 

O ser humano é complexo pois concentra múltiplas perspectivas: é social, econômico, político, psicológico. É um ser de sabedoria e de loucura. 

A complexidade segue uma tetralógica de ordem, desordem, interações, organização. São fases a que os sistemas se submetem, principalmente os seres vivos. Os humanos vivem também o trinômio sociedade, indivíduo, espécie, já que cada componente está no outro, de maneira hologramática, recursiva e dialógica, como é o nosso pensamento: parte no todo e todo na parte, ação que gera outra ação e retroage, sucessivamente e, opostos e complementares. É na dialógica que as contradições não se resolvem, e o conflito permanece, como vida-morte; sabedoria-loucura.  

Trata-se de um pensamento atual que busca enfrentar os desafios de sociedades cada vez mais complexas. Não se pode mais responder às indagações do cotidiano multidimensional e imprevisível de maneira fragmentada ou disciplinar. Os problemas precisam de respostas que consideram as diversas áreas do conhecimento. 

Em épocas de policrise – que se colocam nas diversas áreas e sociedades – como as atuais, é que mais precisamos de um pensamento complexo, de religação. Em momentos adversos como estes de pandemia, precisamos unir prosa – as ações rotineiras do trabalho do dia a dia, à poesia – a metáfora, o imaginário, a alegria da vida. Por isso, cada vez mais, a complexidade é atual e necessária para se enfrentar as incertezas da vida. 

Filósofo, sociólogo, antropólogo, o pensador francês Edgar Morin nasceu em Paris e completou recentemente 100 anos. Em 1999, foi convidado pela Unesco para pensar a educação do novo milênio. Elaborou, então, um conjunto de reflexões que circulou entre educadores dos diversos pontos do globo para verificações e complementações. Ao final, o documento foi publicado em formato de livro, intitulado Os sete saberes necessários à educação do futuro. Não são saberes curriculares, mas conhecimentos que a escola deve levar em conta. São eles: As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusãoOs princípios do conhecimento pertinente; Ensinar a condição humana; Ensinar a identidade terrena; Enfrentar as incertezas; Ensinar a compreensão; A ética do gênero humano.  

Após duas décadas, o livro é muito atual, e os saberes indicados, cada vez mais importantes ao universo educacional, em todos os níveis e graus de ensino. 

Outro livro do pensador, igualmente importante, foi publicado no Brasil no mesmo ano 2000: A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, que trata de mostrar, como já sinalizava o filósofo Montaigne, que mais vale uma cabeça bem feita que seleciona e contextualiza os saberes do que uma cabeça bem cheia que acumula e empilha saberes, como que em uma prateleira. Nesse livro, aponta para a urgência da reforma do pensamento, do linear ao complexo. Várias de suas obras sobre educação foram publicadas no Brasil, nos últimos anos. 

MENSAGEM DE ESPERANÇA 

Ao longo de sua obra, Edgar Morin nos convida a estabelecer uma política de civilização planetária e a educação é uma brecha para essa construção. Ele diz que precisamos de uma nova via para o futuro da humanidade, que compreende amor, fraternidade e a regeneração do humanismo. Nos faz renunciar ao melhor dos mundos, mas não desistir de um mundo melhor. Cada um pode fazer a sua parte, já que a história da humanidade nos mostra que muitas mudanças começaram com iniciativas marginais que, depois, tomaram forma.  


*Izabel Petraglia é doutora em educação e pós-doutora pelo Centro Edgar Morin, da EHESS, Paris. Professora universitária e autora de livros como Edgar Morin: a educação e a complexidade do ser e do saber (ed. Vozes). 


Artigo originalmente publicado na Revista Educação  – Agosto de 2021

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