Como as interfaces cérebro-computador influenciarão o futuro do trabalho?

Imagine se seu gestor pudesse saber se você realmente prestou atenção à sua última reunião pelo Zoom. Ou imagine se você pudesse preparar sua próxima apresentação usando apenas seus pensamentos. Esses cenários podem em breve se tornar realidade devido ao desenvolvimento de interfaces cérebro-computador (ICCs). 

Para simplificar, pense em uma ICC como uma ponte entre seu cérebro e um dispositivo externo. Hoje, essa ponte é formada principalmente com o auxílio da eletroencefalografia (EEG) — um conjunto de métodos que monitora a atividade elétrica do cérebro. Contudo, o cenário está mudando. Ao utilizar múltiplos sensores e algoritmos complexos, em breve será possível analisar sinais cerebrais e extrair padrões cerebrais relevantes. A atividade cerebral pode, então, ser registrada por um dispositivo não invasivo — não sendo necessária nenhuma intervenção cirúrgica. Na verdade, a maioria das ICCs convencionais já existentes não é invasiva, como dispositivos que podem ser usados na cabeça e fones de ouvido. 

O desenvolvimento da tecnologia ICC teve como foco inicial ajudar pessoas com paralisia a controlar dispositivos de assistência utilizando seus pensamentos. Entretanto, novas aplicações são identificadas o tempo todo. Por exemplo, as ICCs podem atualmente ser usadas como uma ferramenta de treinamento em neurofeedback para melhorar o desempenho cognitivo. Espero ver cada vez mais profissionais utilizando ferramentas ICC para melhorar seu desempenho no trabalho. Por exemplo, é possível que uma ICC detecte que seu nível de atenção está muito baixo, comparado à importância de uma determinada reunião ou tarefa, e dispare um alerta. Ela também pode adaptar a iluminação do seu escritório de acordo com o seu nível de estresse ou impedir que você use o carro da empresa caso seja detectada sonolência. 

Uma startup com sede em Toronto chamada “Muse” desenvolveu uma tiara com sensor que fornece informações em tempo real sobre o que está acontecendo no seu cérebro. Como é possível imaginar, a startup já possui um “Programa de Bem-Estar Corporativo” para “ajudar seus funcionários a reduzir o estresse, aumentar a resiliência e melhorar o engajamento”. Outros dispositivos usados na cabeça e disponíveis no mercado também utilizam sensores exclusivos para detectar sinais cerebrais e alavancar algoritmos de aprendizado de máquina para fornecer dados sobre os níveis de engajamento dos usuários/trabalhadores. É possível identificar se alguém está concentrado ou distraído.  Teoricamente, isso poderia ajudar as pessoas em suas tarefas diárias, avaliando quais deveriam ser realizadas primeiro com base no nível de atenção. Contudo, há, também, um grande potencial para o abuso (abordado em mais detalhes abaixo). 

A capacidade de monitorar (e possivelmente controlar) os níveis de atenção cria novas possibilidades para os gestores. Por exemplo, as empresas poderiam ter acesso a um “painel de RH ICC” específico, no qual os dados cerebrais de todos os funcionários seriam exibidos em tempo real. Será que os supervisores passarão a monitorar os níveis de atenção de seus colegas? Ao fim de cada avaliação anual de desempenho, iremos analisar e comparar os níveis de atenção com base em ICCs? As suas informações cerebrais podem interessar aos seus empregadores, permitindo que eles prestem atenção no seu grau de concentração e adaptem as cargas de trabalho com base nisso. Novamente, há muito potencial para o abuso. 

Também espero que mais eventos profissionais promovam as ICCs em breve. Na verdade, pesquisas demonstraram que os dados cerebrais podem ajudar a prever quais estandes e atividades as pessoas visitariam. No futuro, precisaremos das ICCs para participar de eventos comerciais? 

Além da análise de sinais cerebrais, algumas empresas já estão trabalhando em soluções que podem realmente modular a atividade cerebral. Pesquisadores da Columbia University demonstraram como o neurofeedback com ICC baseada em EEG pode ser empregado para influenciar o estado de alerta e melhorar o desempenho de indivíduos em tarefas que exigem alto esforço cognitivo. Apesar dos resultados promissores, alguns especialistas, como Theodore Zanto, diretor do programa de neurociência da UCSF, afirmam que, embora as ICCs em exames de EEG sejam capazes de determinar os níveis de atenção de um usuário, elas não conseguem diferenciar seu objeto de foco. Em um artigo publicado na plataforma Medium em janeiro de 2019, ele diz: “Não tenho conhecimento de nenhum dado que indique ser possível saber se alguém está prestando atenção no professor, no celular ou apenas em seus próprios pensamentos internos e devaneios.” Além disso, percebi por meio do meu próprio trabalho que as ICCs também são afetadas pelas características específicas do usuário, como sexo, idade e estilo de vida. Na verdade, minha equipe e eu estamos tentando determinar como a atividade cerebral pode afetar o desempenho de um atleta. De acordo com algumas pesquisas, “fatores psicológicos, incluindo atenção, carga de memória, fadiga e processos cognitivos concorrentes, além das características básicas dos usuários, como estilo de vida, sexo e idade, influenciam a dinâmica cerebral instantânea”. Os especialistas acreditam que cerca de “15 a 30% das pessoas são naturalmente incapazes de produzir sinais cerebrais robustos o suficiente para operar uma ICC”. Obviamente, isso pode produzir resultados incorretos e, em último caso, fazer as empresas tomarem más decisões .As ICCs ainda têm um longo caminho a percorrer e muitas melhorias são necessárias. 

Outro uso para as ICCs no trabalho está relacionado à forma como interagimos com máquinas e dispositivos. Acredito que, no futuro, os trabalhos mais “perigosos” exigirão o uso de ICCs. Por exemplo, algumas empresas que desenvolvem ICC já utilizaram o  EEG para analisar sinais de sonolência ao volante. Empresas cujos trabalhadores operam máquinas perigosas podem exigir que seus funcionários sejam monitorados da mesma forma.  Acredito que, algum dia, o uso de uma ICC durante o trabalho seja obrigatório para pilotos e cirurgiões. 

A ideia de interação entre humanos e dispositivos é um dos pilares das ICCs, pois a tecnologia permite a comunicação direta entre o cérebro e dispositivos externos. Nos próximos anos, poderemos controlar nossa apresentação do PowerPoint ou arquivos do Excel usando apenas o nosso cérebro. Alguns protótipos podem traduzir a atividade cerebral em texto ou instruções para o computador e, em teoria, à medida que a tecnologia é aperfeiçoada, as pessoas utilizarão ICCs para redigir memorandos ou relatórios no trabalho. 

Também podemos imaginar um ambiente de trabalho que se adapta automaticamente ao seu nível de estresse ou pensamentos. As ICCs podem detectar o estado mental de um funcionário e ajustar os dispositivos próximos adequadamente (uso de casas inteligentes). De modo concreto, quando você estiver estressado, seu dispositivo pode enviar informações (por Bluetooth) para o seu computador, para que ele comece a tocar músicas “calmas” da sua playlist, ou seu Slack pode ativar o modo “não perturbe” e seu próximo compromisso pode ser cancelado automaticamente. Claramente, esse cenário levanta questões sobre privacidade. Você se sentiria confortável sabendo que outras pessoas podem saber exatamente como você se sente mentalmente? E se essa informação puder ser usada contra você? E se esses dados puderem ser modificados por outra pessoa sem sua aprovação? 

Os pesquisadores também estão realizando experimentos com “passthoughts” – ou senhas geradas por sinais cerebrais – como uma alternativa às senhas comuns. Em breve, poderemos entrar em nossos inúmeros dispositivos e plataformas usando nossos pensamentos. Conforme descrito neste artigo da IEEE Spectrum, “Quando realizamos tarefas mentais, como imaginar uma forma geométrica ou cantar uma música, nosso cérebro cria sinais elétricos neuronais únicos. Um bilhão de pessoas poderiam cantarolar mentalmente a mesma música e nenhum padrão de ondas cerebrais gerado por essa tarefa seria igual. Um eletroencefalógrafo (EEG) iria ler essas ondas cerebrais usando eletrodos não invasivos que gravam os sinais. Os padrões únicos gerados podem ser usados como uma senha ou identificação biométrica.”  

Como é possível imaginar, existem inúmeras questões éticas e preocupações em torno do uso da tecnologia ICC no local de trabalho. As empresas que optarem por utilizar a tecnologia ICC podem enfrentar reações contrárias em massa dos funcionários, sem falar do público em geral. Quando se trata de coletar dados cerebrais, o potencial para abuso é assustador: mesmo quando utilizada com a melhor das intenções, as empresas podem se tornar excessivamente dependentes do uso de dados cerebrais para avaliar, monitorar e treinar funcionários, e há riscos associados a isso. 

As ICCs não são uma tecnologia perfeita — não há como saber quais erros ou dificuldades enfrentaremos quando empresas e indivíduos começarem a usar esses dispositivos no mundo real. Além do mais, as ICCs — como qualquer tecnologia — podem ser invadidas por hackers. Invasores podem acessar um dispositivo ICC e criar/enviar dados de EEG manipulados. Eles também podem interceptar e alterar todos os dados transmitidos por sua ICC. É possível que hackers roubem e utilizem suas “passthoughts” e interajam com seus dispositivos (laptop, carro, etc.). Esses riscos podem afetar diretamente nossa integridade física. Dados cerebrais também podem ser roubados para serem usados contra você para fins de extorsão. O potencial para abusos graves é enorme. Quando as empresas começarem a usar e analisar dados cerebrais, como priorizarão a privacidade e a segurança dos dados e cumprirão as principais normas do setor referentes à proteção de dados dos funcionários? Quem, em última análise, será o proprietário dos dados coletados? E quais serão os direitos dos funcionários quando as empresas começarem a empregar essas tecnologias? Não é preciso dizer que a tecnologia está bem à frente das políticas e regulamentações que precisariam ser implementadas. 

Mesmo assim, ela avança lentamente no mercado de massa. Cada vez mais, startups e grandes empresas de tecnologia trabalham para desenvolver ICCs mais seguras, precisas e baratas. Espero ver líderes de negócios adotando a tecnologia e tentando aprimorar os dados cerebrais para obter melhor eficiência no trabalho e mais segurança. Recomendo que comecem a formular uma estratégia de ICC o mais rápido possível, para que possam considerar os possíveis riscos e benefícios.


Alexandre Gonfalonieri é chefe de inovação da DNA Global Analytics e escreve sobre IA e ICC. 


Artigo originalmente publicado na Revista Harvard Business Review – Fevereiro de 2021

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