Conheça Luís Camargo, tradutor da obra Vamos ao teatro!

Nesta entrevista, Luís Camargo fala sobre sua trajetória e seus principais trabalhos, com destaque para a tradução da obra Vamos ao teatro!, que reúne três peças de Gianni Rodari, um dos mais importantes autores da literatura infantojuvenil mundial. 

  1. Conte-nos um pouco sobre a sua formação e sua trajetória como escritor, ilustrador e tradutor.  

Nasci em São Paulo, em 1954. Nos anos 1970, estudei Arte na FAAP e, em 1975, fiz uma exposição de desenhos no Masp. Depois de formado, vendo que as crianças inventavam histórias quando desenhavam, tive a ideia de fazer arte para elas, contando histórias. Assim nasceram o desenhista, o escritor e o ilustrador. Meus primeiros livros infantis, como Maneco Caneco Chapéu de Funil, foram publicados em 1980.  

Fiz mestrado em Letras pela Unicamp e depois comecei a estudar o gênero fábula. Veio daí a vontade de traduzir, adaptar e criar fábulas. Foi assim que traduzi um punhado de fábulas de Leonardo da Vinci. Pela FTD Educação, publiquei traduções e adaptações literárias do francês, do italiano e do inglês. 

2. Como é sua relação com o teatro? Fale sobre sua experiência na área teatral no começo de carreira. Como foi dirigir peças infantis na juventude? 

Adoro teatro. Na juventude, assisti a algumas peças várias vezes e desenhava durante os espetáculos. Depois de ver Bonitinha, mas ordinária, de Nelson Rodrigues, fui até o Rio de Janeiro mostrar os desenhos e aquarelas para o dramaturgo.  

Ainda no tempo da faculdade, eu e Giulia, minha futura mulher, participamos de um grupo de teatro amador, liderado pelo diretor Hamilton Saraiva. Na verdade, eram vários grupos. Em um, atuei como auxiliar de iluminação e depois como ator. Em outro, infantil, atuei como ator, diretor, cenógrafo e figurinista. Fizemos várias apresentações da peça Um elefantinho incomoda muita gente, de Oscar von Pfuhl, em diferentes espaços, como o Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo. Em muitas dessas encenações, ao final distribuíamos papel e giz de cera para as crianças desenharem. Estes desenhos contribuíram para entendermos a recepção infantil. 

3. Como é sua relação com a Língua Italiana? Como aprendeu o idioma? Já traduziu outros livros da língua de Dante para a Língua Portuguesa?   

Aprendi o italiano sem perceber. Giulia, minha mulher, é italiana. Ela, meu sogro e minha sogra sempre falaram italiano em casa. Um dia, me defrontei com um texto italiano e percebi que conseguia entender. Depois disso comecei a ler, a consultar dicionários e enciclopédias. Estive por duas vezes na Itália. Uma em Bolonha, cidade conhecida pela feira internacional de livros infantis, outra em Reggio Emilia, cidade famosa pela qualidade de sua Educação Infantil, que deu origem à chamada pedagogia Reggio Emilia, internacionalmente conhecida. Em parceira com Giulia, traduzimos alguns livros de Roberto Mussapi, publicados pela FTD Educação: adaptações de A divina comédia, de Dante; A tempestade, de Shakespeare; O avarento, de Molière; e Fausto, de Goethe. 

4. Quais são os principais desafios de traduzir um texto escrito para ser encenado, considerando especificamente o público infantil?  

Eu trabalhei muitos anos como professor de arte, entre outros lugares em uma escola de Educação Infantil e em um internato. Ler, contar, inventar e encenar histórias eram atividades que faziam parte do cotidiano, assim como entoar poemas e canções. Eu também incentivava as crianças e os jovens a desenhar e a inventar suas histórias. Vem daí, talvez, um gosto por me expressar do modo mais simples possível. Esta experiência é o fundamento do trabalho de criação, desenho, escrita e tradução. Mas há uma coisa que aprendi logo na estreia da primeira peça em que atuei e dirigi, Um elefantinho incomoda muita gente. O texto teatral precisa passar pela experiência do palco. É no palco que realmente se percebe o que funciona e o que não funciona. Foi uma lição do próprio Oscar von Pfuhl, que estava presente na estreia da peça, em Santos-SP.  

5. Como recebeu o convite para traduzir o livro Vamos ao teatro, com as peças do italiano Gianni Rodari? O que representa para o senhor traduzir os textos desse autor, vencedor, em 1970, do prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantojuvenil?  

Para mim, foi como receber um prêmio! Um privilégio estar ao lado de Marina Colasanti e de Claudio Fragata, que traduziram para a FTD Educação, respectivamente, Um zoo cheio de histórias e Zero, para que te quero? 

6. Como foi o processo de tradução dessa obra? Quais são os desafios de traduzir teatro infantil italiano para o português?  

Como em outras traduções minhas, é um processo por camadas. Depois da primeira tradução, vêm algumas releituras, em que vou procurando melhorar a fluência. Isso é especialmente importante num texto que vai ser dito. De um lado, procurei manter alguns elementos que evocam a língua original. De outro, incorporei alguns elementos de nossa cultura. Coisinhas pontuais, um tempero. 

7. No discurso de agradecimento pelo prêmio Hans Christian Andersen, Gianni Rodari disse: “Pode-se falar de homens mesmo falando de gatos e pode-se falar de coisas sérias e importantes mesmo contando histórias alegres”. Você acredita que as peças de Vamos ao teatro! apresentam temas importantes de maneira leve e alegre?  

Esta frase de Gianni Rodari é maravilhosa. Poderia ser inscrita em um monumento. Ela revela, de um lado, grande empatia do escritor com as crianças, o reconhecimento da importância da fantasia, da alegria e do humor. De outro lado, revela o respeito à inteligência da criança. E é isso que encontramos em todas as peças do livro. 

8. No texto de apresentação você escreve: “A peça teatral é um tipo de texto que foi escrito para ser encenado. Mas, mesmo sem a encenação, a leitura de uma peça teatral exige uma imaginação bem criativa na nossa cabeça, diferente da que usamos na hora de ler um conto (gênero narrativo) ou um poema (gênero lírico)”. Como textos teatrais podem estimular a imaginação e a criatividade das crianças?  

O teatro para crianças no Brasil geralmente abrange peças teatrais representadas por adultos para crianças. A produção de textos dramáticos que podem ser lidos e encenados por crianças é muito pequena. Quando conheci essas peças de Gianni Rodari, pensei: “Aí está algo que nos falta!”. As falas são bastante coloquiais, não há excessos de cenário, figurino e orientações para os atores (rubricas) e algumas peças são adaptações de contos conhecidos. Tudo isso, a meu ver, favorece o envolvimento e a imaginação da criança. 

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