LER, CRIAR, BRINCAR (também em tempos de pandemia)

Sempre gostei de ouvir e contar histórias. Ao ouvi-las, me imaginava nos lugares, como se fosse a personagem em questão. Acho que de tanto escutar essas histórias e de lê-las, decidi passar para o papel as que eu inventava também. Eu sempre me conectei com o lúdico, encontrando nas histórias inúmeras possibilidades. Nunca andei de bicicleta, mas, nos textos que escrevi, era exímia na bike. Se em algum momento da vida encontrei dificuldades, eu as colocava nas histórias, encontrando soluções aqui e ali, tanto para as personagens como para as minhas próprias. A diversão, pelo menos, era garantida. Além da diversão, encontro nas histórias esperança, uma conexão entre os familiares e amigos.

Nunca encarei leitura como uma tarefa chata, nem quando pequena. A criança precisa sentir prazer ao ler, o mesmo prazer que sente ao brincar, porque a leitura é lúdica.

As histórias, para mim, sempre vieram (como ainda vêm) através de várias formas, vários canais. Uma história que ouvi, uma reportagem publicada no jornal, uma conversa, e até de um pedido. Por exemplo, o texto do Cadê o livro que estava aqui? surgiu de uma conversa e uma sugestão. Durante um almoço, um amigo perguntou: “Por que não escreve um texto partindo daquela parlenda ‘Cadê o toucinho que estava aqui?’” Terminamos o almoço, voltei para casa e comecei a escrever. A história é curta, como a parlenda. Reescrevi algumas vezes até que o texto ficasse redondo, fluido. No lugar do “toucinho”, coloquei “livro”. E se ele não estava ali, alguém o pegara. Mas quem? O cachorro, claro. E eles saíram correndo para pegar quem? Um gato, com certeza! E ele só podia ir atrás de um rato. E assim a história fluiu, sem muita dificuldade (o que nem sempre acontece!) Faltavam as imagens, que precisavam ser bem coloridas. E foram, na escolha de uma ilustradora maravilhosa, que é Jana Glatt.

Com o livro na mão, posso construir outros personagens para esse mesmo texto, uma joaninha, um caracol, uma menina, a madrinha, o padrinho. Também posso mudar o título e o final. E que tal representar com outras ilustrações? Ao contar, então, invento vozes diferentes, faço sons, imito o cachorro, o gato, o passarinho, uma capa nova para o livro.

Nesses tempos de pandemia, em casa, a imaginação não fica de máscara e nem trancada. Ela voa, sabe? Entra em todos os lugares, sem pedir licença, nem precisa passar por higienização. Criatividade todo mundo tem? Não, mas a gente dá um jeito. Pesquisa, segue o instinto, lê, faz vozes, bate na mesa imitando batidas do Lobo Mau, faz voz fina, voz grossa, refaz o livro de tantas formas que nem o autor imaginaria.

Nesses tempos de confinamento, leia e invente. Crie. Brinque. E mande uma foto do que criou, inventou. Não tem coisa que eu mais goste de receber do que isso… Esses momentos em que você para tudo e se lança para os braços da criatividade com as crianças. Aliás, a redescubra em você. Criatividade tem braços? Sim, e pernas, rabos e pelos. Pode ter penas também, se for o caso. Você decide!

Bem-vindo ao mundo das histórias! Com certeza, a criança que existe em você (e também aquela de quem você cuida) guardará esses momentos na memória para sempre. E essa mesma criança vai fazer o mesmo com as que virão. E o mundo se tornará melhor com tantas leituras, tanta criatividade e compartilhamento.

Telma Guimarães

Telma Guimarães

Telma Guimarães nasceu em Marília-SP. Aluna de intercâmbio nos Estados Unidos, formada em Letras Vernáculas e Inglês pela Unesp, Marília, Professora concursada da Rede Estadual de Ensino de SP, lecionou por muitos anos em Campinas. Recebeu da APCA (Associação de Críticos de Arte de SP) o título de Melhor Autora, em 1989, pelo livro Mago Bitu, Edições Loyola.
É autora de livros infantis, juvenis, bilíngues, dicionário bilíngue e livros didáticos de Ensino Religioso e de Inglês.
Pela FTD Educação, publicou recentemente o livro infantil Cadê o livro que estava aqui?, com ilustrações de Jana Glatt, Bichodário, Numeródromo, e os juvenis Infância roubada, coautoria com Júlio Emílio Braz, Meu avô & eu, Segredos de agenda, Quem vai pra cozinha?.
A autora mora em Campinas-SP.

Família e Escola – Acolhimento e Orientação

Em determinado momento, neste 2020, famílias e escolas foram chamadas a alinhar ações, pensamentos e sentimentos, criando uma nova identidade para o ensinar e aprender. A chamada acontece todos os dias. Pais e professores respondem presença, não somente o aluno.

Sendo assim, mais do que nunca e sempre, família, escola, acolhimento e orientação precisam comunicar-se num diálogo mediador e de superação. Voltamos todos a ser alunos, nos reinventamos aprendendo a cada instante a ciência da renovação. O momento pede mediação entre a pessoa e o profissional que somos com a posição que ocupamos na família.

Propor atividades, observar a criança ao realizá-las, segurar a mão da criança no contorno de uma letra, conferir resultados de respostas e cálculos, folhear cadernos e livros buscando o conteúdo, o texto, a imagem, a página certa, ouvir uma leitura. A família, pai, mãe, avós, tios, irmãos têm sempre nas mãos essas tarefas. Agora ainda mais.

A BNCC ‒ Base Nacional Comum Curricular, em seus Campos de Experiência que percorrem o currículo desde a Educação Infantil, contempla: Eu, o outro e nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. É certo que família e escola seguem unidos uma jornada intensa de descobertas e experimentações, acolhendo, orientando, ofertando e comungando ações.

Material didático e tecnologia educacional são o aporte para essas vivências interativas entre família e escola, mas o sentimento amoroso e fraterno é que define e facilita cada passo desse percurso para a garantia da aprendizagem.

O caminho se faz tortuoso muitas vezes, mas é evidente a força em cada um para a superação de todos os obstáculos.

A jornada começou há cerca de três meses, a linha de chegada está adiante e, quando a atingirmos, ouviremos todos, os aplausos. No pódio estarão cada aluno e sua família, cada professor e cada escola, vitoriosos e enaltecidos pelo esforço forte e amoroso que se impôs a todos nós.

Nessa jornada, firmes e constantes, família e escola são guiados para a linha de chegada. Mais do que merecedores de medalhas, tornam-se mais fraternos e solidários.

Valeria Pellicano
Pedagoga
Londrina, junho de 2020.

Valeria Pellicano

Valeria Pellicano

Valeria Pellicano é Pedagoga, Especialista em Educação Especial com vasta experiência no processo de alfabetização e formação de professores. Atualmente coordena o Parque Escola Bico Amarelo - Acessibilidade e Inclusão, atendendo sistemas de ensino pelo Brasil.

2020 não é um ano perdido, poderá ser o ano da reconstrução da escola brasileira

2020 deveria ser o ano de implantação completa da proposta curricular da Educação Básica a partir da BNCC. As propostas, tal como formalizadas em 2019, sofreram uma abrupta interrupção em função do necessário isolamento advindo da pandemia. Escolas fechadas, ambientes culturais e esportivos sem acesso, com crianças e jovens em casa e as famílias tendo de reinventar outra dinâmica para o seu cotidiano.

Os professores, atores principais e facilitadores do desenvolvimento integral de seus alunos, mobilizaram-se para uma radical transformação de seu trabalho. Pesquisa recente informa que cerca de 80% das escolas estão conseguindo oferecer ensino remoto, embora com recursos auxiliares de tecnologia e comunicação muito diferentes, com impacto mais negativo entre os alunos mais vulneráveis, seja pela ausência de acesso à tecnologia, seja pela própria fragilidade de professores ou da própria escola, mas todos igualmente buscam levar o ensino remoto a seus alunos, valendo-se de adaptações contínuas de seus projetos originais de trabalho. Para a maioria das escolas e dos alunos, esses recursos inexistiam, além da total falta de formação dos professores para a nova modalidade de atuação. Para mantenedores, gestores e professores, a remodelação da oferta de ensino teve que ocorrer da sexta para a segunda-feira.

Para as famílias, também num desafio emergencial, as circunstâncias impuseram um papel de protagonismo numa cena de Educação formal, onde antes eram apenas coadjuvantes. Como tal, reorganizaram as rotinas da casa, e os pais, além de cuidarem de seus próprios trabalhos e do sustento da família, tiveram de zelar pelo equilíbrio emocional do grupo familiar, adaptando ambientes de aprendizagem em novos vínculos com a escola de seus filhos, agora no papel coadjuvante.

Novos papéis e novos desafios educacionais bravamente enfrentados pelas escolas e pelas famílias merecem apoio irrestrito de toda a sociedade.

Temos de potencializar os ganhos desse período e adaptar nossas burocracias e legislação para evidenciar as aprendizagens de alunos, professores e famílias.

Para tal, precisamos aprender a avaliar criteriosamente o desenvolvimento integral dos alunos nesse período, não só para valorizar o esforço de todos, mas para legitimar a escolaridade alcançada por cada um. Para fazer isso, podemos nos reportar às três categorias estruturais que organizam qualquer sistema de avaliação.

A primeira delas refere-se ao o que avaliar. Para isso, é fundamental que os professores registrem tudo o que ofereceram remotamente como atividades de ensino aos seus alunos, incluindo exercícios corrigidos ou não, em qualquer meio de comunicação, desde sofisticadas tecnologias, até material impresso. Em segundo lugar, é necessário estimar uma medida para esse esforço e, para tal, os professores devem se valer da proposta inicial de seu trabalho neste ano letivo, considerando também os trabalhos dos poucos dias de aula presenciais. Quanto da proposta inicial o professor considera que ensinou? O terceiro requisito é atribuir valor. Para isso, vamos precisar estabelecer uma demonstração (prova) para diagnosticar o que foi possível aprender e desenvolver por cada um dos alunos, sem nenhuma pretensão de atribuir notas. Certamente, isso só poderá ser realizado quando as salas de aula estiverem presencialmente constituídas, com as devidas condições sanitárias. E aqui também muito equilíbrio será necessário para criar essa avaliação diagnóstica (prova) para a reorganização do trabalho de cada turma de alunos. Vale aqui a reflexão sobre focalizar o que realmente será necessário em cada componente curricular para o prosseguimento das trajetórias de escolaridade de cada aluno nas séries seguintes.

Para avançar numa perspectiva mais moderna de avaliação, cada professor deveria pedir a cada família que faça uma avaliação do desenvolvimento de seus filhos, não em relação à habilidades acadêmicas, mas em relação às habilidades socioemocionais tão almejadas pela nova BNCC, tais como: resiliência, cooperação, solidariedade, criatividade, empatia, entre outros, num relato simples e voluntário para constar dos registros da escola.

Os diretores, de posse dos registros de todo esse trabalho, poderão propor aos respectivos Conselhos de Educação a devida equivalência às 800 horas letivas.

Com certeza, as valorosas experiências vividas por professores, pais e alunos representarão um marco significativo na história de suas vidas e da Educação brasileira.

Espero que as transformações que os professores tiveram de implementar em seu trabalho sejam incorporadas em suas novas propostas de atuação; que os gestores tenham a coragem de implantar uma proposta híbrida de ensino, ampliando as jornadas diárias com o apoio do ensino remoto; que a cultura de avaliação formativa possa auxiliar professores no ajuste de seu trabalho em cada turma; que os vínculos das famílias com as escolas sejam fortalecidos e que os alunos possam renovar sua alegria para os encontros com sua turma e seus professores brevemente no ambiente escolar.

Se soubermos aprender com ela, essa experiência transformará positivamente a Educação brasileira.

Maria Inês Fini

Maria Inês Fini

Doutora em Educação, pedagoga, professora e pesquisadora de Psicologia da Educação, Psicologia do Desenvolvimento e Social, especialista em Currículo e Avaliação. Foi fundadora da Faculdade de Educação da UNICAMP (1972-1996); Diretora de Avaliação para Certificação de Competências do INEP (1997-2002), período em que criou e coordenou o ENEM e o ENCCEJA, Presidente do INEP (2016-2019). Coordenou o desenvolvimento de Propostas Curriculares em instituições escolares e redes de ensino e desenvolveu sistemas de avaliação para Prefeituras, Secretarias Estaduais e Instituições de Ensino Superior. Membro do Conselho Científico da ABAVE, do Conselho Administrativo da ACERP TV Escola. Diretora pedagógica da EDUCARE e diretora de operações estratégicas da EFIGIE, onde realiza consultoria nas áreas de formação de professores, currículo, avaliação e internacionalização na Educação Básica e Superior.

O que esperar dos líderes educacionais nos tempos atuais?, por Sonia Colombo

Ninguém previu esta crise e, em alguns momentos, o chão parece não estar mais firme abaixo dos pés dos condutores das instituições educacionais.

Como continuar caminhando e conduzindo o time para projetos futuros, com otimismo e energia? Como acolher todos na retomada às aulas presenciais?

As referências têm mudado a cada dia e sabemos que os líderes precisam reinventar alguns processos, reorganizar o que estava sedimentado, acalmar os profissionais da escola, estimulá-los e, ainda, criar novas alternativas para que os processos continuem de forma exitosa.

Sabemos que não é fácil…, mas é exatamente neste momento que um líder necessita acolher emocionalmente sua equipe e seus alunos, focar nas questões relevantes e buscar novos caminhos.

A entrada na quarentena foi o distanciamento e agora vamos iniciar um novo modelo de convivência. A escola faz parte de um ambiente onde sempre ocorreram as expressões de afeto por meio de abraços, sorrisos e beijos. Em tempos de pandemia, essas expressões de afeto poderão continuar acontecendo, mas de modo diferente.

Se a acolhida é essencial, como podemos demonstrá-la neste novo normal?

  • Criar canais e espaços de escuta e expressão, pois estes trazem oportunidades de elaboração. Ao possibilitarmos momentos para conversas abertas sobre este novo cenário que estamos vivendo, podemos refletir, em conjunto, os aspectos positivos e negativos, os ganhos e as perdas.
  • Sorrir com os olhos.
  • Mostrar compreensão pelos sentimentos. Ao reconhecermos as emoções e os sentimentos, temos a oportunidade de exercitarmos o conhecimento sobre os pensamentos e comportamentos que temos em relação ao outro.
  • Demonstrar o vínculo de confiança.
  • Respeitar o tempo de cada um ‒ é relevante nos atentarmos à individualidade das emoções dos colaboradores e dos alunos.

O que devemos evitar, pois não ajuda.

  • Julgar.
  • Racionalizar, pois argumentos não dialogam com a dor.

Um ponto de atenção e que não pode ser negligenciado é que no processo de acolher o outro o líder também precisa se cuidar, olhar para dentro de si e exercitar o seu autoconhecimento. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional deve ser um exercício diário.

Ao referenciarmos o autoconhecimento, estaremos aumentando a capacidade de reconhecer, com precisão, as próprias emoções e os pensamentos. Ao sabermos quais são os valores que nos guiam, saberemos identificar como estes influenciam os nossos comportamentos. O autoconhecimento impacta tanto em nosso bem-estar, como na qualidade dos relacionamentos nos quais estamos envolvidos.

Esta crise não vai durar para sempre! Ela vai acabar e nós vamos superá-la! Muitas mudanças ainda nos esperam! Que possamos ter mais consciência social, ser mais humildes, passar energia positiva para nossos pares/colaboradores/clientes/fornecedores e acreditar que efetivamente conseguiremos superar a crise.

Sonia Simões Colombo

Sonia Simões Colombo

Diretora e fundadora da HUMUS. Presidente do Instituto Ela – Educadoras do Brasil. É Consultora nas áreas de Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Escritora e organizadora de diversos livros na área de gestão educacional, destacando-se: “Gestão Universitária ‒ os caminhos para a excelência”, “Desafios da Gestão Universitária Contemporânea”, “Nos Bastidores da Educação Brasileira – a gestão vista por dentro”, “Gestão Educacional: Uma Nova Visão”; “Marketing Educacional em Ação” e “Escolas de Sucesso”. Psicóloga, com especialização em Administração de Empresas, e Lead Assessor pela Quality Management International.

A Educação no Brasil após a Covid-19, por Claudia Costin

O Brasil foi um dos signatários, em 2015, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável-ODS, entre eles, o ODS 4, referente à Educação, que estabelece que, até 2030, iremos assegurar a todos Educação de qualidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Infelizmente, o país, apesar de importantes avanços em acesso à escola no período recente, ainda tem enormes desafios para oferecer um ensino com algum nível de excelência e convive com expressivas desigualdades educacionais, como mostram os resultados de 2018 do PISA, avaliação aplicada a jovens de 15 anos de 79 economias, organizada pela OCDE.

De fato, o Brasil vive uma crise de aprendizagem e, isso, num período em que vivemos a chamada 4ª Revolução Industrial, marcado por uma automação acelerada pelos avanços da Inteligência Artificial. Com isso, há uma crescente substituição de trabalho humano por máquinas, inclusive o que demanda competências intelectuais. Assim, o mundo do trabalho passou a exigir dos jovens não só habilidades básicas, mas competências mais sofisticadas, para poder garantir empregabilidade ou, alternativamente, empreendedorismo.

É nesse contexto que surge a Covid-19 que, em pouco tempo, transformou-se numa pandemia e a maior crise sanitária de que o mundo teve notícia. Cerca de 190 países tiveram escolas total ou parcialmente fechadas, num processo que atingiu cerca de 1,5 bilhão de alunos. O Brasil foi um deles e, desde meados de março, as crianças e os adolescentes não vão às aulas. Neste contexto, há um grande risco de um aumento expressivo de desigualdades educacionais e de agravamento geral da crise de aprendizagem.

Trabalho com aconselhamento técnico para secretários estaduais e municipais de educação na construção de alguma forma de aprendizagem emergencial em casa para seus alunos. Afinal, serão meses de aulas perdidas e precisamos mitigar os riscos presentes.  

A maior parte das redes públicas usou uma combinação de mídias para tentar assegurar que a aprendizagem chegasse a todos. Assim, foram utilizados aqui, como em boa parte dos outros países, plataformas digitais, televisão, rádio e roteiros de estudo em papel. Por meio de uma logística complexa, que envolveu inclusive o envio de cestas de víveres, para que a falta de merenda não resultasse em insegurança alimentar para parte das crianças e dos adolescentes, foram entregues materiais didáticos nas escolas ou nas residências, adquiridos pacotes de dados para Internet e construídas parcerias com canais de TV ou rádio. 

Nas escolas particulares, a logística tampouco foi simples, afinal, nem todas tinham plataformas digitais e muitas contavam com alunos bolsistas que tinham dificuldades em acessar a Internet fora da escola. Além disso, a perda de renda por parte de muitas delas foi importante.

Mas, mesmo com o fechamento de escolas, os avanços da Educação em direção ao digital acabaram lentamente se construindo, pegando inicialmente os educadores de surpresa, já que não havia nem conectividade de qualidade para todos, nem cursos que os preparassem adequadamente para o uso educacional de ferramentas on-line. Com o tempo, ocorreu um processo de aprender fazendo e, mesmo na dor, desenvolvendo nos mestres algumas competências para um ensino que demanda não só conhecimentos sobre computadores e aplicativos, como trabalho colaborativo entre pares. Também houve professores que se voluntariaram para dar aulas na TV ou no rádio. Talentos foram revelados, mas foi, de fato, muito desafiador para boa parte dos docentes e até para os pais, que se viram instados a atuar com mais intensidade na educação escolar de seus filhos.

Embora narrativas derrotistas associem o empenho dos docentes a uma prática ritualista, muito se fez, e foi, para muitos deles, um exercício de adaptação ao uso de novas mídias e de redescoberta do prazer em superar obstáculos profissionais. Além disso, muitos pais passaram a valorizar o empenho dos professores de seus filhos ao constatar como é desafiadora e complexa a profissão de professor.

A partir do que aprendemos em tempos de Covid-19, poderemos avançar, com apoio de tecnologia e de achados científicos, no desenvolvimento não só de competências básicas, mas também das competências do século XXI nos alunos e mestres, para nos assegurar que o país possa promover um desenvolvimento mais inclusivo.

As soluções tecnológicas que, mais recentemente, foram desenvolvidas para a Educação não vão substituir os professores, segundo estudos prospectivos. Ao contrário, mesmo com a transição demográfica acelerada que vivemos, o que os especialistas têm mostrado é que há ainda escassez de docentes para realizar um trabalho consistente de preparação dos alunos para um mundo incerto e complexo.

Além disso, a tecnologia vem se mostrando útil aos docentes, possibilitando-lhes trabalhar com dados sobre o que aprende cada aluno, de forma a desenvolver estratégias mais efetivas de ensino. 

Na volta às aulas, quando ocorrer, poderemos entender melhor o impacto da Covid-19 na Educação. Para além dos sofrimentos causados a muitas famílias, na forma de perda de entes queridos e de fonte de renda, algumas lições aprendidas em Educação ficarão. E elas não se referem apenas aos textos enviados para casa ou às aulas remotas assistidas. Elas dizem respeito à possibilidade de aprender para além dos muros da escola, de envolver as famílias, e de contar com o acesso à Internet de banda larga como um serviço público a ser universalizado, como passou a ser, em meados dos anos 1990, a telefonia. 

Mas se essa volta ocorrer como em países que já retomaram as aulas, com rodízio de alunos para reduzir o tamanho de turmas, teremos um ensino híbrido sendo esboçado, com grupos de estudantes tendo aulas presenciais, enquanto outros continuam em casa, com aprendizagem remota, para depois se revezarem.

Com isso, as escolas terão de aprender a adotar estratégias como salas de aula invertidas e metodologias ativas no processo de ensino. Mas, para que tudo isso funcione bem, além de alguns bons exemplos ocorridos durante a pandemia, teremos que investir de forma bem mais efetiva em atrair, formar e reter bons professores, e construir, a partir do que aprendemos na crise, uma nova escola que possa nos trazer um futuro menos desigual. 

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.