Aprender com Mucambo

Há uma tendência no país de enviar professores à Finlândia para conhecer melhor a interessante abordagem que eles adotam em educação. Queremos saber como são as aulas, qual o currículo e como eles conseguem assegurar aprendizagem a todos, de forma aprofundada e coerente com as demandas do século 21.

De fato, faz muito sentido olhar o que nações com bons sistemas educacionais fazem e não precisar reinventar a roda. Assim, por vezes compensam os custos de uma viagem como essa para “conhecer “in loco” o que vem sendo feito.

Há, porém, algumas questões a considerar: há várias décadas, o país tornou, em conflito com a universidade, a formação inicial dos professores profissionalizante e o acesso à carreira mais seletivo. Isso trouxe não só um preparo mais adequado, como uma valorização muito importante à profissão. A abordagem dada e as demais transformações decorrem desta primeira e tornam o modelo não tão fácil de replicar.

Assim, enquanto tentamos pôr em prática o que estabeleceu a nova Base Nacional Docente recomendada pelo Conselho Nacional de Educação e avançamos na implementação da BNCC, talvez faça sentido olhar para o Brasil e aprender com boas práticas já adotadas em estados e municípios que se destacaram no último IDEB.

Vale a pena, neste sentido, olhar para Mucambo, o melhor município do País na avaliação de 2019. Esta cidade do interior do Ceará, de pouco mais de 15 mil habitantes, já tinha um bom IDEB, para padrões brasileiros, mas deu um salto e superou Sobral nos anos iniciais. 

Seu crescimento foi inspirado na cidade que o antecedeu no ranking e se beneficiou de uma parceria com o estado. Mas o que eles fizeram não é difícil de replicar em outras partes do Brasil. Mucambo adotou a seguinte estratégia:

– Parceria entre escola e família, inclusive com visitas domiciliares;

– Trabalharam com dados de aprendizagem do município, de cada sala e de cada aluno, a partir de Avaliações Formativas unificadas;

– Estabeleceram metas para cada sala de aula e cada escola; 

– Criaram um bom sistema de recuperação de aprendizagem;

– Investiram em formação continuada colaborativa entre os professores.

De fato, isso não parece impossível de ser adotado em outras cidades e escolas!

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

Dar de volta ou a Educação para valores

Há uma expressão muito usada em países de língua inglesa para se referir ao imperativo ético de ajudar o próximo como uma lembrança de você também foi ajudado, seja por outras pessoas, instituições, profissionais mais experientes ou condições associadas ao seu nascimento, o “give back”, literalmente devolver. Assim, alguns “dão de volta” à escola em que estudaram, na forma de doações ou bolsas para alunos mais pobres, outros ajudam quem lhes deu a mão e agora se encontra em dificuldades e ainda há quem dá de volta para seres humanos em sofrimento.

Sim, trata-se de caridade, mas há uma atitude de humildade associada ao gesto que o torna mais bonito: trata-se de devolver à vida aquilo que ela nos deu. Assim, não temos o direito, neste caso, de nos vangloriar da nossa generosidade.

Lembro dessa expressão, sempre que meu pai me vem à memória. Ele era romeno e veio ao Brasil, fugindo de seu país, logo após a segunda guerra mundial. Quando éramos crianças, sempre dizia: “Não se esqueçam de que o Brasil nos recebeu de braços abertos. Precisamos ajudar o país em tudo o que nos for possível”. 

Esta atitude deveria fazer parte da educação familiar e escolar de todas as crianças e jovens. Ter oportunidades interessantes – viajar, conhecer lugares bonitos, dispor de certos bens – não é feio ou algo que deveria nos envergonhar e sim algo que nos conclama à ação. Pude estudar numa boa escola, que tal oferecer bolsas de estudo para quem não pode fazê-lo? Conto com um bom plano de saúde, que tal ajudar hospitais públicos ou filantrópicos? Colegas me ajudaram, que tal mentorar profissionais em início de carreira?

Não estamos, evidentemente, falando de um fenômeno novo. Há muito tempo que escolas tentam mobilizar as famílias para apoiar ações meritórias, desde voluntariado em construção de casas para populações vulneráveis, prática frequente no Ensino Médio americano e europeu, passando por entrega de víveres para pessoas em risco nutricional ou até reforço escolar para alunos com dificuldades, dado por seus colegas.

A BNCC enfatiza a importância desses aprendizados em escolas seja associando-os a empatia, a colaboração ou a protagonismo juvenil, competências que serão úteis mais tarde para o exercício da cidadania e para o mundo do trabalho. Mas mais importante, a noção de que recebemos da vida e precisamos dar de volta nos torna definitivamente mais humanos.

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

Claudia Costin
Claudia Costin

Aprender com Mucambo

Há uma tendência no país de enviar professores à Finlândia para conhecer melhor a interessante abordagem que eles adotam em educação. Queremos saber como são

Leia mais »

Preparar os jovens para a vida ou para o mundo do trabalho? – por Claudia Costin

Muitas vezes se discute, em Educação Básica, se a intenção é preparar os jovens para a vida ou para o mundo do trabalho. Esta é uma falsa discussão; afinal formar para a vida inclui educar para a autonomia e ninguém é autônomo se não se integra profissionalmente no mundo adulto e depende economicamente de outros. 

Esta discussão ganha especial relevância no contexto da chamada 4ª Revolução Industrial, em que, como projetam Osborn e Frey, da Universidade de Oxford, dois bilhões de postos de trabalho serão extintos até 2030, em ondas sucessivas, obrigando os jovens a constantemente adquirirem novas competências e a, com certa frequência, revisitarem suas escolhas profissionais.

Isto significa que teremos que adotar, no Ensino Médio, apenas itinerários formativos profissionalizante? Certamente que não, embora faça sentido abrir esta possibilidade a mais jovens. Mas mesmo nos itinerários propedêuticos – preparatórios para o Ensino Superior – é fundamental discutir com os alunos opções profissionais, desenvolver reflexões sobre aprendizagem para toda a vida e mesmo introduzir eletivas que contenham um caminho de profissionalização, como programação ou “webdesign”, nos moldes do que está previsto no currículo paulista recentemente aprovado.

É importante entender que, no novo contexto em que vivemos, as profissões poderão ser provisórias e que o mundo educacional do futuro muito provavelmente incluirá micro certificações, valorizando saberes independente de uma profissão de referência. Em outros termos: aquilo que aprendemos em uma etapa de vida pode vir a construir para a seguinte.

Assim, trabalhar com o projeto de vida é um caminho importante, independente do itinerário formativo selecionado pelo aluno e a BNCC corretamente prevê isto já a partir do Ensino Fundamental. Ela também remete à importância de se aprender a aprender, um dos pilares da Educação de acordo com a UNESCO e que será particularmente útil para um mundo do trabalho em um processo de transformação disruptiva.

Mas é bom lembrar também que tais competências serão também importantes para outras dimensões da vida, como para uma cidadania ativa e empática com os que passam por dificuldades, assim como para uma relação de fruição do belo e instigante, de acesso constante com o mundo das artes. As expressões artísticas registram e refletem o tempo em que são produzidas e poder apreciá-las demanda de cada um de nós um olhar e uma escuta qualificada. E isso também é papel da Educação!

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

Claudia Costin
Claudia Costin

Aprender com Mucambo

Há uma tendência no país de enviar professores à Finlândia para conhecer melhor a interessante abordagem que eles adotam em educação. Queremos saber como são

Leia mais »

Escrever para aprender a pensar – por Cláudia Costin

Infelizmente, algumas escolas retardam o ensino de produção textual, já que redação é cobrada apenas no Enem ou em vestibulares. Outras ainda acham que aprender a escrever é intuitivo e basta ler para escrever.

A escrita, na verdade, requer um trabalho progressivo, de acordo com Natalie Wexler e Judith Hochman em “The Writing Revolution”, com direção e intencionalidade pedagógica, que inicie com frases que vão se tornando mais complexas, formando parágrafos e por fim textos completos, criados a partir de conteúdos aprendidos na escola, imaginados ou vivenciados pelos alunos.

Esse processo deve começar já na pré-escola, com o professor anotando frases verbalizadas pelos alunos, numa construção coletiva, introduzindo-os ao mesmo tempo a um vocabulário mais diversificado. Esse rico aprendizado deve continuar ao longo de toda a Educação Básica e ser utilizado também como um meio de reflexão sobre o que se está aprendendo. Se quisermos ter uma escola que, de fato, ensine a pensar e não apenas a deglutir conhecimentos ou decorar a visão de mundo do professor, é fundamental que se reserve tempo para a elaboração de textos a partir do que foi lido ou explanado em classe.

Algumas escolas tentam suprir essa necessidade com os chamados “fichamentos de leitura”, mas isso apenas favorece a memorização e não a incorporação do conhecimento a partir da conexão do que foi lido com outros saberes já adquiridos, com o repertório cultural do aluno.

E o trabalho pedagógico, para ser efetivo, não se encerra com a escrita do texto e a atribuição de uma nota. Envolve idas e voltas entre mestre e aluno, para refinamento da composição resultante. Afinal, aprender a pensar e colocar reflexões no papel não é algo trivial. Tampouco o é a profissão de professor, daí a importância de valorizarmos o seu fazer, que é bastante complexo e demandante.

Mas há outro elemento importante no processo de aprendizagem da escrita: a ideia de que o aluno pode ter um conjunto de trabalhos de sua autoria. A alegria de produzir uma leitura documentada da realidade, que possa ser comunicada a outros, ajuda a desenvolver autonomia, persistência e protagonismo, algumas das chamadas competências para o século 21. Não por acaso, estão entre as habilidades destacadas na Base Nacional Comum Curricular.

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

Claudia Costin
Claudia Costin

Aprender com Mucambo

Há uma tendência no país de enviar professores à Finlândia para conhecer melhor a interessante abordagem que eles adotam em educação. Queremos saber como são

Saiba mais »

Leitura e repertório cultural – por Claudia Costin

Os países com bons sistemas educacionais têm incluído em seus currículos o desenvolvimento de habilidades, em vez de uma lista de tópicos a serem ensinados. Com isso, garante-se maior flexibilidade no trabalho do professor e uma visão mais contemporânea no processo de ensino-aprendizagem.

Isso faz muito sentido, mas traz também um risco: alunos que vêm de famílias em situação de vulnerabilidade costumam ter um repertório cultural mais restrito às experiências de vida que tiveram, o que torna desafiadora a tarefa de ler e entender textos mais complexos. Se traduzirmos a competência de ler e interpretar apenas como um conjunto de técnicas, corremos o risco de diagnosticar equivocadamente o problema de aprendizagem do aluno como uma falha na habilidade leitora.

O linguista canadense Steven Pinker costuma dizer que, como o aprendizado inicial de leitura envolve sobretudo decodificação, ou seja, associar letras a sons, o repertório cultural da família tem impacto menor no processo de alfabetização. Quando, porém, a criança avança para as séries escolares seguintes, a leitura de textos mais avançados passa a demandar referências históricas ou científicas que a escola precisa oferecer de maneira explícita e não apenas apostando que a criança acabe aprendendo sozinha.

Por isso é tão importante que se ensinem na escola tópicos de história, ciências e geografia, associados aos textos colocados para sua leitura, mesmo nos primeiros anos do ensino fundamental. Caso contrário, estudantes vindos de meios mais vulneráveis terão poucas chances de remover os imensos obstáculos para sua evolução na aprendizagem e na prática leitora. Neste sentido, é importante não só dar textos de não ficção aos alunos, como explicar o que neles está implícito, na forma de alusões.

Em livro recentemente publicado, “The Knowledge Gap”, a historiadora da educação Natalie Wexler mostra que as desigualdades educacionais nos Estados Unidos crescem frente à inadequação do processo de ensino em alguns dos sistemas escolares do país. Sem um ensino voltado para a ampliação do repertório cultural dos alunos, uma maior proficiência em interpretação de textos não será alcançada e a desigualdade seguirá sendo uma marca da educação americana.

No Brasil, a BNCC e os currículos estaduais e municipais para o ensino fundamental já contemplaram a integração de habilidades com conhecimentos, valorizando saberes de diferentes disciplinas. Que isso se mantenha também nos de ensino médio e que, na volta às aulas, possamos começar a diminuir a nossa desigualdade educacional, tanto mitigando os danos resultantes da pandemia, como ensinando de forma mais efetiva.

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.

Claudia Costin
Claudia Costin

Aprender com Mucambo

Há uma tendência no país de enviar professores à Finlândia para conhecer melhor a interessante abordagem que eles adotam em educação. Queremos saber como são

Leia mais »

A Educação no Brasil após a Covid-19, por Claudia Costin

O Brasil foi um dos signatários, em 2015, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável-ODS, entre eles, o ODS 4, referente à Educação, que estabelece que, até 2030, iremos assegurar a todos Educação de qualidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Infelizmente, o país, apesar de importantes avanços em acesso à escola no período recente, ainda tem enormes desafios para oferecer um ensino com algum nível de excelência e convive com expressivas desigualdades educacionais, como mostram os resultados de 2018 do PISA, avaliação aplicada a jovens de 15 anos de 79 economias, organizada pela OCDE.

De fato, o Brasil vive uma crise de aprendizagem e, isso, num período em que vivemos a chamada 4ª Revolução Industrial, marcado por uma automação acelerada pelos avanços da Inteligência Artificial. Com isso, há uma crescente substituição de trabalho humano por máquinas, inclusive o que demanda competências intelectuais. Assim, o mundo do trabalho passou a exigir dos jovens não só habilidades básicas, mas competências mais sofisticadas, para poder garantir empregabilidade ou, alternativamente, empreendedorismo.

É nesse contexto que surge a Covid-19 que, em pouco tempo, transformou-se numa pandemia e a maior crise sanitária de que o mundo teve notícia. Cerca de 190 países tiveram escolas total ou parcialmente fechadas, num processo que atingiu cerca de 1,5 bilhão de alunos. O Brasil foi um deles e, desde meados de março, as crianças e os adolescentes não vão às aulas. Neste contexto, há um grande risco de um aumento expressivo de desigualdades educacionais e de agravamento geral da crise de aprendizagem.

Trabalho com aconselhamento técnico para secretários estaduais e municipais de educação na construção de alguma forma de aprendizagem emergencial em casa para seus alunos. Afinal, serão meses de aulas perdidas e precisamos mitigar os riscos presentes.  

A maior parte das redes públicas usou uma combinação de mídias para tentar assegurar que a aprendizagem chegasse a todos. Assim, foram utilizados aqui, como em boa parte dos outros países, plataformas digitais, televisão, rádio e roteiros de estudo em papel. Por meio de uma logística complexa, que envolveu inclusive o envio de cestas de víveres, para que a falta de merenda não resultasse em insegurança alimentar para parte das crianças e dos adolescentes, foram entregues materiais didáticos nas escolas ou nas residências, adquiridos pacotes de dados para Internet e construídas parcerias com canais de TV ou rádio. 

Nas escolas particulares, a logística tampouco foi simples, afinal, nem todas tinham plataformas digitais e muitas contavam com alunos bolsistas que tinham dificuldades em acessar a Internet fora da escola. Além disso, a perda de renda por parte de muitas delas foi importante.

Mas, mesmo com o fechamento de escolas, os avanços da Educação em direção ao digital acabaram lentamente se construindo, pegando inicialmente os educadores de surpresa, já que não havia nem conectividade de qualidade para todos, nem cursos que os preparassem adequadamente para o uso educacional de ferramentas on-line. Com o tempo, ocorreu um processo de aprender fazendo e, mesmo na dor, desenvolvendo nos mestres algumas competências para um ensino que demanda não só conhecimentos sobre computadores e aplicativos, como trabalho colaborativo entre pares. Também houve professores que se voluntariaram para dar aulas na TV ou no rádio. Talentos foram revelados, mas foi, de fato, muito desafiador para boa parte dos docentes e até para os pais, que se viram instados a atuar com mais intensidade na educação escolar de seus filhos.

Embora narrativas derrotistas associem o empenho dos docentes a uma prática ritualista, muito se fez, e foi, para muitos deles, um exercício de adaptação ao uso de novas mídias e de redescoberta do prazer em superar obstáculos profissionais. Além disso, muitos pais passaram a valorizar o empenho dos professores de seus filhos ao constatar como é desafiadora e complexa a profissão de professor.

A partir do que aprendemos em tempos de Covid-19, poderemos avançar, com apoio de tecnologia e de achados científicos, no desenvolvimento não só de competências básicas, mas também das competências do século XXI nos alunos e mestres, para nos assegurar que o país possa promover um desenvolvimento mais inclusivo.

As soluções tecnológicas que, mais recentemente, foram desenvolvidas para a Educação não vão substituir os professores, segundo estudos prospectivos. Ao contrário, mesmo com a transição demográfica acelerada que vivemos, o que os especialistas têm mostrado é que há ainda escassez de docentes para realizar um trabalho consistente de preparação dos alunos para um mundo incerto e complexo.

Além disso, a tecnologia vem se mostrando útil aos docentes, possibilitando-lhes trabalhar com dados sobre o que aprende cada aluno, de forma a desenvolver estratégias mais efetivas de ensino. 

Na volta às aulas, quando ocorrer, poderemos entender melhor o impacto da Covid-19 na Educação. Para além dos sofrimentos causados a muitas famílias, na forma de perda de entes queridos e de fonte de renda, algumas lições aprendidas em Educação ficarão. E elas não se referem apenas aos textos enviados para casa ou às aulas remotas assistidas. Elas dizem respeito à possibilidade de aprender para além dos muros da escola, de envolver as famílias, e de contar com o acesso à Internet de banda larga como um serviço público a ser universalizado, como passou a ser, em meados dos anos 1990, a telefonia. 

Mas se essa volta ocorrer como em países que já retomaram as aulas, com rodízio de alunos para reduzir o tamanho de turmas, teremos um ensino híbrido sendo esboçado, com grupos de estudantes tendo aulas presenciais, enquanto outros continuam em casa, com aprendizagem remota, para depois se revezarem.

Com isso, as escolas terão de aprender a adotar estratégias como salas de aula invertidas e metodologias ativas no processo de ensino. Mas, para que tudo isso funcione bem, além de alguns bons exemplos ocorridos durante a pandemia, teremos que investir de forma bem mais efetiva em atrair, formar e reter bons professores, e construir, a partir do que aprendemos na crise, uma nova escola que possa nos trazer um futuro menos desigual. 

Claudia Costin

Claudia Costin

Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretora global de Educação do Banco Mundial, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, professora da PUC-SP, do Insper, da Enap (Canadá) e mais recentemente da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard. Foi ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro.